Por O Dia

Clayton Patterson é um verdadeiro patrimônio do Lower East Side, a antiga área boêmia de Nova York. De fato, no auge, a área foi para lá de boêmia. Para muita gente, era o que se chama de um “antro”. Me lembro de dar uma carona à uma amiga que morava ali, entre as avenidas A e B, nos começo dos anos 90. Carioca, como eu, ela não era nenhuma ingênua, desconectada da realidade. Escolada na geleia geral das ruas do Rio, ela sabia muito bem que estava morando em uma das áreas aparentemente mais perigosas da cidade. Mas o aluguel era convidativo e ela tomava os cuidados possíveis para não se indispor com traficantes e drogados do bairro.

Foi ali, em meio ao chamado submundo nova-iorquino, que surgiram grandes nomes musicais do período. Especialmente do punk rock. Os interessados no assunto e os aspirantes a músico tinham vários pontos de encontro, troca e descoberta. Mas a Meca era mesmo o CBGB, uma pequena casa de espetáculos onde se viu de tudo um pouco. As paredes cobertas de pichações e o cheiro constante de cigarro misturado com urina eram marcas registradas do lugar que tinha um palco pequeno e poucas mesas. Ali, o público fica mesmo muito próximo dos músicos. E quem frequentava o lugar viu nascer os Ramones, Blondie, Talking Heads, B-52’s e muitas outras bandas.

Aberto em 1973, o CBGB sobreviveu bravamente às mudanças da cidade. Mas 33 anos depois a especulação imobiliária terminou por solapar esse último reduto da Nova York que ganhou fama mundial como centro de produção musical, de experimentação e efervescência. Na época, o tabloide The New York Post publicou uma declaração bastante precisa de Cheetah Chrome, do The Dead Boys. “Manhattan entregou a alma aos senhores do dinheiro”.
Por isso comecei falando de Clay Patterson. Artista underground desse último bastião de irreverência nova-iorquina, ele parece ter chegado à mesma conclusão. Cabelos longos e grisalhos, ele tem uma barba tão comprida que exibe sempre uma trança sob o queixo. Entre outras atividades, ele é fotógrafo e documentou a produção artística do Lower East Side, e a mudança que a área experimentou. Uma transformação que ele decididamente não topa. Os restaurantes mais baratos sumiram. O preço da bebida nos bares disparou. O espaço foi sendo ocupado por condomínio de luxo para quem quer se cercar de segurança com o gostinho de morar em uma área que já “aconteceu”. No lugar do CBDB, por exemplo, surgiu uma butique caríssima do estilista John Varvatos, que antes de abrir negócio próprio, foi o principal criador de coleções na Polo Ralph Lauren e na Calvin Kline.

Cansado de brigar com a cidade por conta dos preços cada vez mais exorbitantes dos aluguéis, Clay Patterson entregou os pontos. Decidiu se mudar de Nova York, e dos Estados Unidos. Aos 65 anos, ele decidiu viver na Áustria onde é conhecido e reconhecido como artista em uma pequena comunidade da cidade de Bad Ischl, na beira do rio Traun. A mudança de Clay Patterson tem um peso simbólico tão grande que foi capa do caderno de cidade do New York Times. Como disse o guitarrista Cheetah Chrome há quase uma década, foi-se a alma da cidade. A especulação imobiliária venceu.

Nova York vive uma mudança no processo de ocupação urbana que pode sinalizar o que vem por aí para outras cidades dos Estados Unidos. Na última década, grandes empresas de Wall Street apostaram no mercado imobiliário da cidade. Viram ali a possibilidade de lucros exorbitantes. E em muitos casos, superestimaram o que poderiam ganhar porque não contavam com a resistência organizada de alguns grupos de moradores. A escritora Laura Gottesdiener (autora do livro “A Dream Forclosed: Black America and the Fight for a Place to Call Home”, título que poderia ser traduzido como O Despejo de um Sonho: a América Negra e a Luta por um Lugar para Chamar de Lar”) publicou um longo artigo recentemente relatando o que está acontecendo no South Bronx, uma área conhecida no passado como violenta, hoje ocupada por moradores de baixa renda e considerada, pelos especuladores, como investimento futuro com grande potencial por ser a continuação norte da ilha de Manhattan.

Ali, no South Bronx, empresas de investimento compraram quarenta e dois edifícios, onde vivem 1.600 famílias, dispostos a expulsar os pobres e transformar os prédios em condomínios de luxo. O cálculo era simples: depois de liberar a área da população de baixa renda, seria possível multiplicar e muito o valor do aluguel para pagar o investimento na compra dos prédios e ainda ter um belo lucro. Com essa promessa de ganho certo, o negócio foi “securitizado”, ou seja, transformado em títulos que foram vendidos para fundos de investimento e de pensão. E como fazer para espantar os moradores? Usando os truques mais sórdidos: milhares de ordens de despejo falsas, cortar o fornecimento de água e luz e deixar as famílias sem aquecimento durante alguns dias do inverno. Além disso, a manutenção dos prédios foi suspensa. Paredes descascadas, tetos que afundam e banheiros em péssimo estado são comuns.

Existem denúncias até de operários contratados para destruir banheiros e cozinhas de alguns moradores. Apesar das condições deploráveis, as famílias se recusaram a sair. Se organizaram para brigar contra os especuladores por falta de alternativa melhor ou pela necessidade de viver relativamente próximas ao local de trabalho. O que parecia um belo investimento se transformou em uma longa briga, ainda sem solução à vista. Mas os especuladores chegam a perder dinheiro. Como, antes da briga, repassaram os títulos do grande investimento aos fundos, já recuperaram quase tudo que investiram e deixaram o mico na mão de quem investe com as futuras aposentadorias de trabalhadores do país. Nos Estados Unidos pós-crise, grandes investidores fizeram o mesmo em várias cidades do país. Compraram grandes blocos de casas e apartamentos de famílias despejadas por falta de pagamento de olho no lucro com aluguéis polpudos. Se o que Nova York está enfrentando serve de exemplo, muitas cidades norte-americanos tem uma bela dor de cabeça pela frente.

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Clayton Patterson é um verdadeiro patrimônio do Lower East Side, a antiga área boêmia de Nova York. De fato, no auge, a área foi para lá de boêmia. Para muita gente, era o que se chama de um “antro”. Me lembro de dar uma carona à uma amiga que morava ali, entre as avenidas A e B, nos começo dos anos 90. Carioca, como eu, ela não era nenhuma ingênua, desconectada da realidade. Escolada na geleia geral das ruas do Rio, ela sabia muito bem que estava morando em uma das áreas aparentemente mais perigosas da cidade. Mas o aluguel era convidativo e ela tomava os cuidados possíveis para não se indispor com traficantes e drogados do bairro.

Foi ali, em meio ao chamado submundo nova-iorquino, que surgiram grandes nomes musicais do período. Especialmente do punk rock. Os interessados no assunto e os aspirantes a músico tinham vários pontos de encontro, troca e descoberta. Mas a Meca era mesmo o CBGB, uma pequena casa de espetáculos onde se viu de tudo um pouco. As paredes cobertas de pichações e o cheiro constante de cigarro misturado com urina eram marcas registradas do lugar que tinha um palco pequeno e poucas mesas. Ali, o público fica mesmo muito próximo dos músicos. E quem frequentava o lugar viu nascer os Ramones, Blondie, Talking Heads, B-52’s e muitas outras bandas.

Aberto em 1973, o CBGB sobreviveu bravamente às mudanças da cidade. Mas 33 anos depois a especulação imobiliária terminou por solapar esse último reduto da Nova York que ganhou fama mundial como centro de produção musical, de experimentação e efervescência. Na época, o tabloide The New York Post publicou uma declaração bastante precisa de Cheetah Chrome, do The Dead Boys. “Manhattan entregou a alma aos senhores do dinheiro”.
Por isso comecei falando de Clay Patterson. Artista underground desse último bastião de irreverência nova-iorquina, ele parece ter chegado à mesma conclusão. Cabelos longos e grisalhos, ele tem uma barba tão comprida que exibe sempre uma trança sob o queixo. Entre outras atividades, ele é fotógrafo e documentou a produção artística do Lower East Side, e a mudança que a área experimentou. Uma transformação que ele decididamente não topa. Os restaurantes mais baratos sumiram. O preço da bebida nos bares disparou. O espaço foi sendo ocupado por condomínio de luxo para quem quer se cercar de segurança com o gostinho de morar em uma área que já “aconteceu”. No lugar do CBDB, por exemplo, surgiu uma butique caríssima do estilista John Varvatos, que antes de abrir negócio próprio, foi o principal criador de coleções na Polo Ralph Lauren e na Calvin Kline.

Cansado de brigar com a cidade por conta dos preços cada vez mais exorbitantes dos aluguéis, Clay Patterson entregou os pontos. Decidiu se mudar de Nova York, e dos Estados Unidos. Aos 65 anos, ele decidiu viver na Áustria onde é conhecido e reconhecido como artista em uma pequena comunidade da cidade de Bad Ischl, na beira do rio Traun. A mudança de Clay Patterson tem um peso simbólico tão grande que foi capa do caderno de cidade do New York Times. Como disse o guitarrista Cheetah Chrome há quase uma década, foi-se a alma da cidade. A especulação imobiliária venceu.

Nova York vive uma mudança no processo de ocupação urbana que pode sinalizar o que vem por aí para outras cidades dos Estados Unidos. Na última década, grandes empresas de Wall Street apostaram no mercado imobiliário da cidade. Viram ali a possibilidade de lucros exorbitantes. E em muitos casos, superestimaram o que poderiam ganhar porque não contavam com a resistência organizada de alguns grupos de moradores. A escritora Laura Gottesdiener (autora do livro “A Dream Forclosed: Black America and the Fight for a Place to Call Home”, título que poderia ser traduzido como O Despejo de um Sonho: a América Negra e a Luta por um Lugar para Chamar de Lar”) publicou um longo artigo recentemente relatando o que está acontecendo no South Bronx, uma área conhecida no passado como violenta, hoje ocupada por moradores de baixa renda e considerada, pelos especuladores, como investimento futuro com grande potencial por ser a continuação norte da ilha de Manhattan.

Ali, no South Bronx, empresas de investimento compraram quarenta e dois edifícios, onde vivem 1.600 famílias, dispostos a expulsar os pobres e transformar os prédios em condomínios de luxo. O cálculo era simples: depois de liberar a área da população de baixa renda, seria possível multiplicar e muito o valor do aluguel para pagar o investimento na compra dos prédios e ainda ter um belo lucro. Com essa promessa de ganho certo, o negócio foi “securitizado”, ou seja, transformado em títulos que foram vendidos para fundos de investimento e de pensão. E como fazer para espantar os moradores? Usando os truques mais sórdidos: milhares de ordens de despejo falsas, cortar o fornecimento de água e luz e deixar as famílias sem aquecimento durante alguns dias do inverno. Além disso, a manutenção dos prédios foi suspensa. Paredes descascadas, tetos que afundam e banheiros em péssimo estado são comuns.

Existem denúncias até de operários contratados para destruir banheiros e cozinhas de alguns moradores. Apesar das condições deploráveis, as famílias se recusaram a sair. Se organizaram para brigar contra os especuladores por falta de alternativa melhor ou pela necessidade de viver relativamente próximas ao local de trabalho. O que parecia um belo investimento se transformou em uma longa briga, ainda sem solução à vista. Mas os especuladores chegam a perder dinheiro. Como, antes da briga, repassaram os títulos do grande investimento aos fundos, já recuperaram quase tudo que investiram e deixaram o mico na mão de quem investe com as futuras aposentadorias de trabalhadores do país. Nos Estados Unidos pós-crise, grandes investidores fizeram o mesmo em várias cidades do país. Compraram grandes blocos de casas e apartamentos de famílias despejadas por falta de pagamento de olho no lucro com aluguéis polpudos. Se o que Nova York está enfrentando serve de exemplo, muitas cidades norte-americanos tem uma bela dor de cabeça pela frente.

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