Por O Dia

Para as grandes redes varejistas e os principais shoppings do país, não é segredo a estreita relação entre a trajetória das vendas em volume do varejo brasileiro e a massa de rendimentos reais da população. O modelo usado por um grande shopping, por exemplo, não admite que apenas a renda nas mãos das pessoas é o determinante do desempenho das vendas. Todos sabem que outros fatores também têm papel, mas a hipótese básica é que os condicionantes adicionais também são influenciados pela renda. São eles: a) o crédito concedido pelas instituições financeiras, seja diretamente aos consumidores, seja através de financiamentos aos varejistas que assim se habilitam a financiar os consumidores; b) o grau de confiança das famílias na situação econômica, o que as leva com maior ou menor intensidade às compras, sobretudo aquelas cujo valor unitário normalmente requer o pagamento parcelado.

Ocorre que a renda está por trás do crédito e da confiança dos consumidores. O que conta é a renda real, razão pela qual a inflação deve ser levada em consideração por sua influência na capacidade de consumo das famílias, especialmente após a inclusão nos últimos anos de 40 milhões de pessoas no mercado interno consumidor, a grande maioria com rendimentos baixos, ou seja, fortemente influenciados pela inflação de alimentos. A renda também delimita a capacidade de pagamento de dívidas, aumentando ou reduzindo a disposição dos bancos emprestarem, e é um dos principais reguladores do humor dos consumidores: com mais dinheiro no bolso, o otimismo do consumidor é maior e vice-versa.

Assim, o crédito e a confiança dos consumidores podem ser tomados como mecanismos potencializadores dos efeitos da renda sobre o consumo. Juntos, constituem uma espécie de elástico que estica ou faz encolher a capacidade de compra das famílias, dado o padrão e o dinamismo da renda. Esta, por seu turno, depende, principalmente, da evolução do emprego e do rendimento real das ocupações, mas pode ser influenciada por transferências de renda promovidas pelo setor público, a exemplo do Bolsa Família e de outros programas do governo. A renda que fica nas mãos das famílias, em suma, é a base do poder de compra. Quando deixa de ser e o crédito passa a comandar o consumo, todo cuidado é pouco, porque isso significa dizer que está sendo formada uma bolha que cedo ou tarde estourará.

Para ilustrar, vejamos como evoluíram a massa real de rendimento habitual das pessoas ocupadas e as vendas reais do varejo brasileiro nos últimos anos. Ambas as pesquisas são realizadas pelo IBGE, a primeira com dados para as seis principais regiões metropolitanas do país, a segunda cobrindo todo o território nacional. Para avaliar o movimento do varejo, usamos o conceito de varejo restrito, que inclui todas as modalidades de vendas de bens, exceto materiais de construção e automóveis, motos e autopeças. No ano de expressivo crescimento econômico de 2010, o varejo teve aumento muito alto, 10,9%, em grande parte porque a massa de rendimentos cresceu 7,5%. Um percentual menor para esta última (4,8%) levou a uma taxa também menor para o varejo no ano seguinte (6,6%). Em 2012, quando o crescimento da massa de rendimentos voltou a acelerar (6,2%), o comércio alcançou 8,4% de variação. Uma nova e significativa desaceleração da renda em 2013 (2,6%) levou a uma das mais baixas taxas para o varejo nos últimos dez anos: 4,3%.

Como está se delineando o corrente ano? O número de pessoas ocupadas estagnou e já não contribui para o aumento da massa de rendimentos, mas a situação de baixo desemprego - 5% da população economicamente ativa em março - concorre para um aumento que podemos considerar significativo do rendimento médio real. Este aumento foi de 3,2% nos três primeiros meses do ano, o mesmo percentual que ascendeu a massa real de rendimentos. Muitos fatos novos podem ocorrer no restante do ano, mas se o primeiro trimestre servir como referência, o crescimento do comércio varejista em 2014 poderá superar o de 2013.


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