Por monica.lima

Foi ao tomar a lição do meu filho, nas vésperas de uma prova de estudos sociais, que ficou ainda mais claro o que já era sabido: as lições de 1929 não serviram de nada para 2008 e para 2014. Não existe o menor interesse em interromper o clico de altos e baixos, de correria especulativa seguida de queda destrutiva. Estudando os grandes eventos dos anos 20, o meu adolescente precisava revisar alguns conceitos. Entre eles, “margin debt”,  comprar ações com dinheiro emprestado, contando com a valorização do papel, com o lucro do investimento, para pagar a dívida.

O livro de estudos sociais da escola ensina que este foi um dos grandes problemas do crash de 1929. Na hora que o preço das ações recuou, foi aquela correria por dinheiro vivo. Um tal de tentar vender ainda mais ações para levantar dinheiro e pagar os empréstimos feitos junto às corretoras para comprar os papéis. Isso só empurrou o mercado ainda mais para baixo num rodamoinho que resultou no famoso crash. Uma espiral negativa que só alimentou mais problemas.

Pois o mesmo fenômeno foi observado na crise de 2008. E agora, o que é pior, já surgem os sinais, comentários e alertas de que o repeteco espreita o mercado norte-americano. Artigo recente do jornal USA Today destacou, na manchete: “Endividamento recorde oferece risco para o mercado em alta”. Segundo a reportagem, durante sete meses seguidos, terminando no fim de janeiro, o volume de dinheiro que os investidores pegaram emprestado com seus corretores para comprar ações vem aumentando mês a mês.

Se até os alunos do último ano do ensino fundamental já sabem que isso não acaba bem, como continua acontecendo, em ciclos repetitivos?

Uma das respostas pode ser a recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que por cinco votos contra quatro (a mesma divisão que deu a George W. Bush a vitória eleitoral em 2000, contra Al Gore) derrubou o teto de contribuição financeira dos indivíduos para candidatos e partidos em um ciclo eleitoral. Ou seja, daqui em diante os milionários terão ainda mais direito de determinar o resultados das eleições em todos os níveis. Em 2010, a mesma Suprema Corte deu às empresas o direito de serem tratadas como gente ao reconhecer que elas também têm direito à liberdade de expressão e, portanto, podem usar a força do dinheiro para influenciar os destinos políticos do país. Empresas e sindicatos passaram a ter o direito de dar dinheiro para grupos que apoiam esta ou aquela causa. Só não podem dar dinheiro à vontade diretamente a candidatos e partidos.

São muito e cada vez mais raros os casos de candidatos que conseguem se eleger apesar de terem campanhas mais pobres. Os candidatos que conseguem levantar mais dinheiro são os que se elegem. Sendo assim, a Suprema Corte determinou que os mais ricos terão larga vantagem nos destinos políticos do país. O que já acontece. Mas está se agravando. E boa parte dos mais ricos está, justamente, concentrada no mercado financeiro. Se além de se beneficiar com o trânsito de dinheiro no país, eles também determinam quem chega ao Congresso, fica difícil passar qualquer lei, como se fez em 1929, para regular o jogo e reduzir os riscos no mercado financeiro. Foi o que se viu com a tentativa de aprovar a lei Frank-Dodd no pós-crise. Ela virou um verdadeiro queijo suíço, com buracos tão grandes que até um caminhão atravessa.

Por isso me pareceu bacana, porém inútil, o discurso do Nobel de Economia Joseph Stiglitz diante do Comitê de Orçamento do Senado este mês. A intenção de Stiglitz era alertar a classe política para o papel que ela tem na redução da tão falada desigualdade. Ele destacou que os Estados Unidos hoje carregam o vergonhoso título de país mais desigual do primeiro mundo. A renda média da população, hoje, ajustada para a inflação do período, é inferior à de 1989. Nesse processo de concentração de renda, os ricos mais ricos, disse Stiglitz, não são os grandes inventores e pesquisadores. Não são os que mais contribuíram para as grandes transformações positivas da economia e da sociedade. “Eles são, desproporcionalmente, os que mais conseguiram descobrir como se apropriar de uma fatia maior do bolo e entre eles, os mais notáveis, claro, são os representantes do setor financeiro que construíram suas fortunas através da manipulação do mercado, de práticas abusivas de cartões de crédito, empréstimos predatórios”.

Desigualdade econômica inevitavelmente se traduz em desigualdade política”, lembrou Stiglitz. Ele estava discursando justamente para homens e mulheres eleitos com o dinheiro dos ricos, dos lobbies, do mercado financeiro. Mas alertou que a crescente desigualdade é uma conta que será paga por todos. Mesmo pelos ricos que hoje lucram com esse aumento da pobreza e da perda de renda da classe média. O dinheiro migra para o topo. Mas essa movimentação tem limite. Como diz o livro de história do meu filho, quanto mais gente desempregada, quanto menos dinheiro no bolso da maioria, menor o volume de compras, menor o volume de vendas do comércio, a produção se retrai, as empresas demitem, o desemprego aumenta ainda mais e a bola de neve vai crescendo, crescendo...

Para o economista, políticas equivocadas levaram o país a esse estado de coisas. E é a política que pode virar o jogo.Em um apelo ao que, em muitos casos, fala mais alto com os políticos, o Nobel lembrou que se a economia dos Estados Unidos não oferece situação melhor para a maioria, a liderança do país no mundo fica abalada. Quem vai querer seguir esse exemplo? perguntou.

O pior é que muitos países parecem estar seguindo a cartilha direitinho. Até mesmo em capítulos que aqui já se mostraram falidos. Mas isso é assunto para uma próxima segunda-feira.

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