Por bruno.dutra

A primeira decorreu de uma frustração, o avanço da preferência do eleitor por Dilma Rousseff. A segunda, de uma obviedade técnica: o Banco Central se prepara para mudar, ou mesmo extinguir, seu programa de intervenção cambial. O dólar fechou cotado a R$ 2,2157, em valorização de 0,24%. No mercado futuro de juros, os investidores prosseguiram no realinhamento para baixo de suas estimativas de taxas. Cada vez mais o pregão se convence de que a anemia econômica não recomenda ao BC outra decisão a não ser congelar a Selic em 11% por um longo período, segundo mandato adentro.

A pesquisa de intenções de voto feita por conta própria pelo Ibope foi precedida, no início da semana, por um boato e por um contraboato. O primeiro foi que a opção pela candidata petista ainda não oficializada cairia a ponto de exigir um segundo turno. Completamente oposto, o segundo foi que subiria, dispensando a reconsulta. Venceu este último. A pesquisa de ontem mostrou a recuperação da candidata.

Depois de cair de 40% em março para 37% em abril, Dilma voltou aos 40% agora. Como a soma dos demais postulantes atinge 36%, levaria já no primeiro turno, um feito não logrado pelo seu padrinho político. Como a margem de erro, em todos os casos, é de dois pontos, na pior hipótese Dilma ficaria com 38%, e os demais candidatos, na melhor, também com 38%.

O trabalho do Ibope não foi inteiramente decepcionante para o mercado porque a candidatura de Aécio Neves persiste conquistando terreno. A opção pelo senador subiu de 13% em março para 14% em abril e para 20% agora. Ganhou seis pontos. O ex-governador pernambucano Eduardo Campos avançou cinco, passando de 6% em março e abril para 11% em maio.

A esperança do mercado está depositada no início do horário eleitoral obrigatório. Torce por um atropelo avassalador do tucano. Mas não dá para apostar dinheiro nisso. O que deve ser feito é a construção de proteções cambiais para a hipótese hoje mais provável, a vitória de Dilma no primeiro ou no segundo turno. É aí que entra o BC e o seu programa de intervenção cambial.

Tópicos cambiais inseridos no discurso feito ontem pelo presidente Alexandre Tombini em seminário foram interpretados pelos investidores como sinais preparatórios ao anúncio de alterações nos mecanismos de fornecimento de hedge. Embora ressalte a importância dos instrumentos para assegurar um horizonte de previsibilidade aos tomadores, Tombini disse já ter notado um arrefecimento na procura por hedge, sobretudo do demandado pelos investidores estrangeiros.

A demanda hoje está mais concentrada nas empresas não financeiras, com dívidas em moeda americana, e nos fundos de investimentos. A observação é muito importante, uma vez que o player historicamente capaz de promover arruaças especulativas no câmbio, os hedge funds globais, está fora do mercado. “O programa tem sido bem-sucedido para distencionar o mercado de câmbio, contribuindo para a redução dos prêmios de risco”, congratulou-se.

A demanda pelos swaps cambiais vem se reduzindo desde março. A febre especulativa que ardeu nos mercados emergentes entre o fim de janeiro e o início de fevereiro dissipou-se completamente. Tanto é que ontem o banco central da Turquia baixou o seu juro básico, que havia sido elevado a 10% durante o surto febril, para 9,5%.

A Turquia fez o choque de juros mais para atrair capitais externos e menos para combater a inflação. Não é o caso brasileiro. Por isso, não se espere que o Copom venha logo a seguir o exemplo turco e diminuir a Selic. O BC maneja o câmbio hoje mais por meio dos instrumentos diretos de intervenção do que pelo uso da taxa de juros.

Em conformidade com o menor interesse por proteção cambial, o BC reduz desde março a oferta de swaps especificamente destinados a rolar os que vencerão. Em março e abril, rolou cerca de 75% do volume a vencer, percentual que baixou para 51% em maio. Mas não mexeu nos termos formais do seu programa. Desde janeiro leiloa por semana US$ 1 bilhão em swaps novos, metade da oferta do compromisso original, firmado em agosto. A tendência é de o BC não pôr um fim explícito ao programa. Seria muito embaraçoso ter de voltar atrás no segundo semestre caso a febre retorne. Mas deverá cortar de novo a oferta primária. Pela metade como fez em dezembro? Provavelmente.

A sintonia da taxa de câmbio será feita no dia a dia por meio do manejo da oferta de rolagem dos contratos a vencer. Ou seja, trata-se de uma continuidade do que está sendo feito hoje, mas em observância das imposições de cada momento peculiar do mercado. O BC deve fechar um pouco as janelas, mas mantendo desbloqueadas todas as saídas de emergência. A gestão Tombini nunca dá um passo do qual não possa se arrepender se as condições mudarem.

Por enquanto, as condições externas não enviam nenhum sinal de alteração: boa disposição de compra de ativos de emergentes porque os indicadores americanos persistem desarmônicos, necessidade de reforço à liquidez europeia e promessa de recuperação da China. Indicadores muito fortes nos EUA poderiam sobrepujar as boas notícias vindas da Europa e da China. Mas não foi o que aconteceu ontem. O crescimento dos EUA atenuou-se em abril, segundo o índice de atividade nacional calculado pela regional de Chicago do Fed. Após subir 0,34 em março, caiu 0,32 em abril. Valores negativos indicam que a economia está se expandindo abaixo da média histórica.

Outros dois indicadores vieram um pouco mais positivos. O índice de indicadores antecedentes do Conference Board subiu 0,4% no mês passado, enquanto as vendas de imóveis residenciais usados cresceram 1,3% também em abril. Já foi suficiente para a taxa da T-Note de 10 anos subiu de 2,54% para 2,55%. O melhor dado do dia veio do outro lado do mundo. O PMI chinês subiu de 48,1 em abril para 49,7 em maio, ante expectativa de alta leve para 48,3. As medidas que visam ajustar a economia à meta de crescimento oficial de 7,5% este ano parecem ter começado a surtir resultado.

A alta do dólar, como não refletiu fatores externos, não suavizou a queda dos juros futuros. Também não serviu de paraquedas o recuo da taxa de desemprego de 5% em março para 4,9% em abril, pois decorreu de um encolhimento de 0,8% da população economicamente ativa. Fez mais preço o desânimo dos empresários. A FGV constatou uma baixa de 4,6% na confiança da indústria, a quinta queda consecutiva. Praticamente todo dia sai um dado negativo da área industrial. Não basta para reacender o “espírito animal” dos empresários a manutenção do juro por longo período. Mas já é um começo. A taxa para a virada do ano caiu de 10,92% para 10,89%. E para janeiro de 2017 de 11,92% para 11,81%.

Você pode gostar