Por O Dia

Rio - A inteligência me emociona. Mais que a inteligência: a consciência. Entrei no táxi e na rádio era o programa do jornalista Ricardo Boechat, sempre muito bom com sua lucidez. Falava sobre política de segurança no Rio, eu e o taxista prestávamos atenção. Até que ele chamou um repórter no ar. O cara começou, e Boechat cortou: “Fala mais alto, fala bem mais alto, que não está dando pra escutar”. Eu ri, o taxista olhou para trás e riu. E eu: “Boechat é muito engraçado”. Ele concordou com a cabeça e falou: “Também estou assim, a gente vai ficando ranzinza pra exigir a coisa certa. Outro dia, fiquei na luta com meu filho. ‘Vai escovar os dentes’. E ele: ‘Mas já escovei’. Eu: ‘Então vai cortar as unhas!’” Rimos.

“A gente não pode dar brecha na educação. Acontece uma coisa, tem que ser apontada na hora”, continuou. “Tem razão”, eu disse. Ele foi em frente: “Estão perdendo o bom senso. Agora está se usando muito nome composto, né? Entraram aqui no táxi uma mãe, um menino e uma babá. O garoto quis puxar o freio de mão, ficou tentando arrancar um pedaço do teto, deu um tapa na cara da babá e a mãe (imita com a voz mole): ‘Paulo Henrique, ai ai ai, já falei pra você não fazer isso’. E entregou um iPhone 5 para a criança. Ou seja, a criança faz um absurdo desses e ainda ganha um prêmio! Loucura, né? Assim está se formando a nossa sociedade”.

Ele contou que nasceu no coração da Penha e que, rico ou pobre, a falta de educação é geral. Que com a possibilidade de se comprar tudo, hoje, bens materiais não faltam a nenhuma classe, mas que a formação do caráter, essa sim, está em extinção. Eu concordava com cada palavra que ele falava, ficando cada vez mais maravilhada por, novamente, identificar que nem todos no mundo estão perdidos. “Meus filhos chegam num lugar e dão ‘boa noite’, ‘bom dia’. Já os meus sobrinhos só falam se são chamados atenção. E mediante alguma moeda de troca. Isso está errado. Mas os meus falam por quê? Porque dou exemplo, porque sei o valor das coisas, porque educação é inegociável. Eu tenho aqui um CD. Sei quanto custou, em que ocasião comprei, por que eu comprei. Sei que foi 30 reais, mas, antes disso, sei o valor afetivo que esse disco tem! Tenho pena dessa geração, cheia de tecnologia e de TVs de LCD de 50 polegadas, em que todos acham que podem viver sozinhos no mundo.” Estava chegando ao meu destino e eu tinha que encerrar a conversa: “Talvez eles possam aprender a mudar, se insistirmos”. Ele olhou para mim pelo retrovisor: “É aquela frase do Nelson Mandela, né? Ninguém nasce odiando outra pessoa. Para odiar, precisa aprender, e se pode aprender a odiar, pode ser ensinada a amar”. “Com certeza”, respondi. E comecei o dia feliz.


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