Por douglas.nunes

Houve tempo no Brasil em que era muito fácil se posicionar sobre temas políticos. Não havia maior dificuldade em fazer escolhas diante dos fatos. Na esquerda, por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, funcionava como divisor de águas. Pelo jargão da época, o PCB apontava a linha justa e alguns a seguiam enquanto outros repudiavam com veemência o atrelamento a Moscou. Quando a União Soviética esmagou a rebelião dos jovens na Tchecoslováquia, muito comunista brasileiro titubeou sem encontrar justificativa para a invasão russa. Mas o experiente João Saldanha não teve qualquer dúvida: “A coisa é muito simples. Vale a regra do futebol. Na zona do agrião, tem de entrar para rachar”. A partir da explicação radical de Saldanha, fez-se luz para os companheiros do PCB, que passaram a defender o fim abrupto da “Primavera de Praga”.

Naquela época, como dizia um poeta polonês, pedra era pedra e faca era faca. Hoje, a cena política é bem mais difusa. E o eleitor tem de enfrentar um caminho pedregoso para saber que decisão tomar. Veja-se, por exemplo, o caso da eleição para o governo do Rio de Janeiro. Para início de conversa, tem-se dois candidatos da base aliada: o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e o senador Lindberg Farias (PT). Homem de confiança do ex-governador Sérgio Cabral, Pezão conta com a simpatia ostensiva da presidente Dilma Rousseff, que tem prestigiado eventos e inaugurações no Estado (que, por sinal, podem lhe dar votos mais à frente). Já o ex-presidente Lula deu sinal verde à candidatura própria do PT e, apesar dos protestos de Cabral, apoia o voo livre de Lindberg, que ficaria a ver navios se dependesse da vontade de Dilma. Resultado: a contragosto, a presidente terá de marcar presença nos dois palanques.

Também pertencem à base aliada o senador Marcelo Crivella (PRB), que foi ministro da Secretaria da Pesca do governo Dilma, e o deputado federal Anthony Garotinho (PR), ex-governador do Rio e candidato à Presidência da República em 2002. A dupla tem votos entre os evangélicos e hoje aparece na liderança das pesquisas. Certamente, vão cobrar a presença de Dilma nas respectivas campanhas, o que servirá para aumentar a confusão na cabeça dos eleitores. De qualquer forma, está criada a saia justa para a presidente. Numa disputa que se prevê acirrada, estará Dilma Rousseff disposta a correr o risco de abrir mão do balaio de votos evangélicos de Crivella e Garotinho?

Para complicar ainda mais o quadro, concorrem pelo lado da oposição o ex-prefeito César Maia (DEM) e o deputado federal Miro Texeira (Pros), ambos com ligações históricas com Leonel Brizola e o PDT, à semelhança de Anthony Garotinho, que também fez carreira nas hordas trabalhistas. Exatamente porque, durante os anos 90, construiu sólidos redutos eleitorais na Baixada Fluminense e no Norte Fluminense, o ex-governador tem alardeado que se considera favorito e pode ganhar a eleição no primeiro turno. Que seu nome é forte não resta dúvida. Mas também é certo que Lula e Dilma não veem com bons olhos seu ressurgimento. Há quem diga que o senador Crivella só entrou na briga para tirar votos de Garotinho. A palavra final, porém, virá dos eleitores, no domingo 5 de outubro. Sem um João Saldanha para ajudar, caberá a eles a complexa tarefa de separar o joio do trigo na política do Rio de Janeiro.

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