Por O Dia

Se havia alguma dúvida sobre a polarização na disputa pela Presidência da República, o PT já escolheu o seu adversário: é novamente o PSDB. Isso ficou claro no vídeo que o partido exibiu em rede de TV na noite de terça-feira. Numa menção franca e desabrida à campanha dos tucanos na eleição de 2002, o marqueteiro João Santana lançou o mote “Não podemos voltar atrás”, que confronta o status atual dos personagens com o passado não muito remoto. Hoje, os meninos estão na escola e não nos sinais de trânsito, limpando para-brisas em troca de gorjetas. Jovens têm emprego, em oposição às vítimas do desemprego, maltrapilhas e desoladas. “Não podemos deixar que os fantasmas do passado voltem e levem tudo que conseguimos com tanto esforço”, diz o locutor do PT.

É chumbo grosso na corrida ao Planalto e, na opinião dos analistas, é parte do esforço de Santana para estancar a queda de popularidade de Dilma Rousseff. Esse é um dos objetivos, mas por trás do vídeo há uma estratégia maior. Ao fazer referência ao polêmico depoimento da atriz Regina Duarte na eleição de 2002, o PT, sem dúvida, demarca o campo de luta. Chama para a briga o PSDB de Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, a simpática atriz afirmava que o Brasil, caso optasse por Lula em lugar de José Serra, corria o risco de “perder toda a estabilidade que já foi conquistada” nos dois mandatos de FHC. O PT respondeu com o slogan “a esperança vai vencer o medo”, Lula venceu a eleição e Regina Duarte tornou-se persona non grata nas gestões petistas.

O vídeo desta semana não esconde que buscou inspiração na campanha do medo. Faz provocação direta ao PSDB ao advertir que a derrota de Dilma representaria a perda de conquistas pessoais e sociais: “Nosso emprego de hoje não pode voltar a ser o desemprego de ontem. Não podemos dar ouvidos a falsas promessas. O Brasil não quer voltar atrás”, conclui o narrador, ao fim das imagens sombrias. Na opinião do colunista Fernando Rodrigues, “a narrativa é clássica” e “visa a inocular o pânico em quem teve alguma melhora de vida”. Pânico é palavra muito forte; trata-se de despertar insegurança e olhe lá. A opinião do consultor político André Cesar, ouvido pelos jornais, é mais objetiva: “Houve uma mudança de referenciais. Se em 2002 a novidade e o risco seriam o PT, agora o mesmo partido luta para permanecer no poder. Este pleito reservará embates duros, contrastando com as duas campanhas passadas”.

Esta aí o nó da questão. A campanha será uma das difíceis dos últimos anos. E o PT não usou a mesma moeda do PSDB por sinal de fraqueza. Ao contrário, os petistas estão convencidos de que têm mais realizações a mostrar do que os tucanos. Têm certeza de que a balança vai pender a seu favor quando os eleitores colocarem nos pratos os oito anos de administração tucana (1995/2002) e os doze anos dos governos Lula e Dilma (2003/2014). O próprio Lula, em conversa reservada com a presidente Dilma, recomendou que ela defenda todo o período petista, e não apenas o seu mandato. E é exatamente o que o marqueteiro Santana passou a fazer.

Ao investir na polarização, o PT faz aposta de risco. Para forçar a decisão dos eleitores já no primeiro turno, escolhe Aécio Neves como o adversário a ser batido. E acredita piamente que vencerá o mano a mano. Mas, se a tática agressiva falhar, o tucano pode crescer ainda mais.

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