Por monica.lima

Os últimos dados da pesquisa industrial do IBGE, referentes a março, vieram com uma cobertura mais ampla e representativa com relação às pesquisas anteriores. Eles mostram um setor sem forças para crescer, nada muito diferente dos últimos três anos, mas, ainda assim, decepcionante, porque contagia e deprime o crescimento econômico do país. Devemos levar em conta que o quadro de fraco desempenho já compromete o emprego, o investimento e a produtividade da economia. No primeiro trimestre do ano o avanço da produção fabril de 0,4% com relação ao mesmo período do ano passado foi especialmente ruim porque resultou de dois segmentos com particular inserção na estrutura industrial.

Para bens intermediários a produção declinou 0,6%, numa clara demonstração de que os problemas que afetam o setor continuam intactos: há forte restrição exportadora e os altos custos internos, o câmbio ainda desfavorável e a deficiência da infraestrutura minam a capacidade das empresas defenderem suas posições no mercado interno. Por outro lado, a demanda final fraca — não é de hoje que o mercado interno brasileiro deixou de ter o dinamismo de outrora — rebate na compra de matérias-primas e insumos, também afetando negativamente o ritmo de produção. Pequeno grande detalhe atinente a este setor: ele representa quase metade da produção industrial do país.

Em bens de capital a queda de 0,9% é duplamente negativa. Primeiro, porque este vinha sendo o mais importante setor que sustentava o baixo, porém ainda positivo, crescimento da indústria brasileira. Em 2013, para um crescimento da indústria como um todo de 2,4%, o conjunto de bens de capital aumentou sua produção em 11,3%. Segundo, porque seu declínio na entrada de 2014 é indicativo de marcha à ré das decisões de investir na economia. Investimento em retrocesso é tudo o que o país não poderia sofrer em uma conjuntura de baixa competitividade e desânimo de empresários e consumidores.

As modalidades de bens de capital que mais declinaram permitem rastrear os setores que com maior intensidade devem estar refreando suas apostas no futuro. Nesse sentido, devemos sublinhar os setores da própria indústria e transportes. Respectivamente, a produção de bens de investimento caiu nesses casos 4,5% e 5,2%, enquanto na produção de bens de capital para agricultura, energia e construção houve expansão de 4,8%, 2,1% e 13,7%. Encolher os investimentos é um “tiro no pé” para quem não tem produtividade e precisa reduzir custos para ampliar a clientela e as vendas, precisamente o caso do setor industrial. As empresas imaginam que com o corte de investimentos estarão reduzindo suas dívidas ou reforçando seu caixa. Isto é verdade do ponto de vista microeconômico. Para o setor como um todo, no entanto, a falta de novas inversões compromete adicionalmente a capacidade de concorrer com a produção estrangeira, o que renova o contexto de queda da produção.

Para complicar ainda mais a situação, mesmo os setores com crescimento positivo nos primeiros meses de 2014 — bens duráveis (3,4%) e bens não duráveis e semiduráveis (2,8%) — poderão não repetir a dose no restante do ano. No primeiro caso, pelo reconhecido esgotamento dos efeitos dos incentivos ao consumo, os quais, a propósito, o governo já vem retirando. O crédito também já não cresce como deveria para suportar maior demanda, algo que pode se agravar pois as taxas de juros estão subindo e a inadimplência das dívidas bancárias das famílias voltou a aumentar. Decididamente, a perspectiva não é favorável para o mercado de bens duráveis.

No caso de bens não duráveis e semiduráveis, o rendimento da população mantem ainda uma favorável trajetória, o que sustenta o consumo de base. Ocorre que isto é consequência de um nível de emprego muito alto — o “pleno emprego” que vem sendo tão criticado —, o que pode não se repetir indefinidamente porque o volume de novas contratações de mão de obra já é negativo na economia.

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