Por monica.lima

Foi aquele momento de comemoração, de ver cumprida a justiça. Donald Sterling, dono do time de basquete Los Angeles Clippers, um conhecido racista e ser humano de quinta categoria, foi gravado falando abertamente do asco que tem pelos afroamericanos e três dias depois foi multado em US$ 2,5 milhões, além de ter sido expulso da liga de basquete americana, a NBA, para o resto da vida. Sterling tem 80 anos e, depois do escândalo, veio à tona que está lutando contra um câncer na próstata.

Pra não deixar dúvidas a respeito do conteúdo da conversa que gerou todo o quiproquó na indústria de US$ 5 bilhões que depende, majoritariamente, dos atletas afroamericanos para existir, aqui vai a tradução de um trecho da conversa de Sterling com a suposta namorada V. Stiviano.

— Não venha aos meus jogos... Não traga pessoas pretas, e não venha. Você pode dormir com (negros), pode trazê-los aqui, pode fazer o que quiser. A única coisa que estou pedindo é para você não promover nisso aí, nessa porcaria de Instagram, você não precisa aparecer com, andando com pretos.

Stiviano postou nas mídias sociais uma foto que tirou com Magic Johnson, o ex-astro do basquete que dispensa apresentações. Quando o conteúdo da conversa começou a circular, os jogadores do Clippers estavam concentrados, em véspera de jogo. Ninguém dormiu. Foi um troca-troca de telefonemas, conversas e tentativas de deliberação que só terminou quando o prefeito de Sacramento, o afroamericano e também ex-jogador de basquete Kevin Johnson, foi acionado por um dos titulares do Clippers.

Johnson entrou em campo com determinação política. Decidido a promover o que já vem defendendo a tempos: a articulação dos jogadores para fortalecer a associação da classe. Foi Johnson que deixou claro para o administrador da liga que o time, e os demais atletas da NBA, esperavam uma resposta firme. Nos bastidores, já se falava em uma manifestação coletiva: o boicote a todos os jogos da NBA a partir daquele momento. Contratos de transmissão, patrocínios, salários, estava tudo na corda bamba. Sem os atletas afroamericanos, maioria disparada no basquete, não existe NBA, não existe o espetáculo que as empresas de material de esportes, de bebidas energéticas, de automóveis etc usam como veículo para vender seus produtos.

A resposta veio rapidamente, à altura do escândalo. Mas a NBA aturou os abusos de Sterling por décadas, sem dar um pio. Em 2003, o dono do Clippers foi processado pelo Departamento de Justiça por se recusar a alugar apartamentos para afroamericanos e latinos nos edifícios que possui em Beverly Hills e Koreantown, áreas das mais caras de Los Angeles além de ter tentado forçar o despejo de outros tantos inquilinos também negros e latinos. Os termos do processo não foram divulgados, mas em 2009 Sterling pagou uma indenização de US$ 2,7 milhões. E a reação da NBA e dos jogadores de basquete naquela época? Silêncio absoluto.

Pior, no mesmo ano, a filial de Los Angeles da NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor) deu seu prêmio máximo a Sterling e este mês repetiria a dose. Que desastre... O diretor da organização entregou o cargo imediatamente. Aparentemente, Sterling deu US$ 45 mil à NAACP de Los Angeles nos últimos anos. Ou seja, a organização se vendeu por muito pouco...

Donald Sterling tem duas mansões em Los Angeles e em uma delas promove, todo ano, a festa do branco no começo do verão. Todos os convidados vão de branco, só ele veste preto. Apesar de não querer a namorada tirando fotos e andando por aí com afroamericanos, ele convidava os jogadores do time para entreter os convidados, para que eles tirassem fotos com os atletas. Sterling nasceu em 1934. Tinha 31 anos quando a lei que proíbe a discriminação no processo eleitoral foi assinada em 1965, depois de muita briga. A lei dá ao governo federal o poder de fiscalizar o processo eleitoral nos estados e garantir que não haja discriminação. Por quê? Porque os estados onde os brancos racistas dominavam a política, especialmente no sul do país, faziam mil manobras para dificultar a participação dos afroamericanos no processo. Colocavam uma quantidade menor de urnas nos bairros de maioria negra, estabeleciam horários mais difíceis (aqui não é feriado em dia de votação), provocavam a formação de grandes filas, exigiam comprovação de alfabetização etc. Como o voto não é obrigatório, fica fácil usar truques para afastar das urnas os eleitores indesejados.

Em 2011, o condado de Shelby, no Alabama, entrou com uma ação na justiça para derrubar parte da lei federal, de 1965, que impedia a discriminação no processo eleitoral. Em 2013 o caso chegou à Suprema Corte. Por cinco votos a quatro, a instância máxima decidiu que a lei aprovada com tanto suor, depois de marchas e protestos liderados, entre outros, por Martin Luther King Jr., é inconstitucional. Depois de 40 anos, desnecessária.

Sterling é apenas símbolo de uma corrente que vem ganhando força e revertendo ganhos de décadas no país. Os conservadores estão fazendo um organizado trabalho de formiga para derrubar, nos estados, leis federais como a da discriminação no processo eleitoral. Como a Suprema Corte do país tem maioria conservadora, quando a disputa bate no topo do poder jurídico, ele em geral dá aos estados o direito de decidir e desmontar ganhos históricos. Foi o que aconteceu recentemente em Michigan. Contrariando a lei federal, o estado conseguiu, na Suprema Corte, o direito de banir a ação afirmativa no acesso às universidades.

Como se eleger um presidente afroamericano, com discurso conciliatório e pós-racista fosse suficiente para fechar as feridas e declarar a sociedade norte-americana curada de seu mais profundo câncer.

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