Por O Dia

Fundamental para financiar as contas externas brasileiras, os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) têm pouco impacto sobre a taxa de investimento da economia. O economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP e doutor pela Unicamp aponta: “É algo evidente nos dados: nos últimos anos, tivemos um forte ingresso de IED. No entanto, este movimento não foi acompanhado pela expansão da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, correspondente à taxa de investimentos em relação ao PIB)”.

Assim, embora festejado como seguro, já que, em tese, não abandonaria o país em um piscar de olhos, como os dólares dirigidos a aplicações remuneradas por juros, esse tipo de ingresso tem lá seus limites.

Além de, mais adiante, gerarem remessas de lucros e dividendos em dólares para suas matrizes (produzindo peso sobre o balanço de pagamentos), grande parte dos IED é dirigida a aquisições de bens já existentes e não a empreendimentos novos, greenfield. “Ao ingressarem, não agregam investimentos novos ao PIB. Ao menos em um primeiro momento”, explica Lacerda, que também foi presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet). Segundo ele, 90% da FBCF são de origem nacional, e esta não é uma exclusividade verde-amarela. Lacerda explica que a enorme maioria dos países tem o mesmo perfil. “Talvez no caso da China, o maior receptor de investimentos do mundo, esta participação nacional esteja em 85% do total dos investimentos, mas não muito menos do que isso”, complementa o economista, especializado em temas relacionados à globalização.

A importância econômica dos IEDs, segundo o professor, está mais associada a setores aos quais normalmente se dirigem: “Eles frequentemente ingressam em áreas mais sofisticadas da produção, como telecomunicações, informática, gerando um impacto relevante na produção tecnológica e na renda”, diz. Além disso, embora não contribua significativamente para elevar o estoque de investimentos, o IED traz alguma contribuição para o crescimento. Estudo realizado em 2013 pelos economistas João Carminati e Elaine Fernandes, do Ipea, apontou que “o IED exerce efeito pequeno, mas positivo sobre o PIB”. Segundo os dois economistas, “uma variação na entrada de investimento direto estrangeiro de 1% implicaria, em um prazo de cinco trimestres, uma variação positiva de aproximadamente 0,01% no crescimento do PIB nacional”. Ou seja, a resposta do PIB a um ingresso expressivo de IED em um determinado momento (um “choque” de IED, segundo os economistas) influencia o crescimento (embora de forma limitada) por um período longo de tempo.

A questão é que o investimento estrangeiro direto poderia contribuir mais para a expansão da economia. Para Lacerda, falta uma política pública para lidar com o IED. “Somos reféns da falta de estratégia”, dispara. Segundo ele, o país deveria ser mais ativo no sentido de incentivar a alocação dos investimentos estrangeiros em segmentos da economia que, a um só tempo, sejam relevantes para a expansão econômica e capazes de gerar exportações. Dessa forma, as divisas produzidas com as vendas externas compensariam as remessas de lucros, ajudando a equilibrar as contas externas ao longo do tempo.

Mas, a julgar pelos dados mais recentes divulgados pela Sobeet, estamos nos distanciando desta estrutura mais benigna apontada por Lacerda. O perfil setorial dos ingressos de investimentos estrangeiros no Brasil mudou radicalmente nas últimas quatro décadas. Hoje, está majoritariamente dirigido ao setor de serviços e busca atender à demanda interna. O setor industrial, que em 1980 detinha 74% do estoque total de IED, recebeu no primeiro trimestre de 2014, apenas 21,2% dos ingressos. O setor primário ganhou relevância no período, passando a deter 10,7% dos ingressos, ante 3,7%, por causa da expansão do segmento de petróleo e gás. E o setor de serviços saltou de 21,9% para 67,6%.

Diversificando interlocutores

Nos últimos meses, o governo vem redobrando os esforços para ampliar os interlocutores privados com os quais vem debatendo o detalhamento das regras das futuras concessões rodoviárias e ferroviárias. As conversas incluem construtoras de diversos portes, empresários estrangeiros interessados em participar dos próximos leilões, bancos e investidores institucionais internos e externos. De acordo com uma fonte do governo envolvida nas discussões, a ampliação vem contribuindo para dar ao governo um termômetro mais preciso sobre o grau de interesse e envolvimento do setor privado nos próximos leilões e a identificar as demandas e necessidades de todos os atores envolvidos no processo de concessões, o que contribui para o aperfeiçoamento das normas. Há no governo a convicção que a interlocução com apenas representantes institucionais do setor da construção, como o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon) não permitiria a pluralidade de informações necessárias ao andamento no processo.

Na última semana, os três bancos oficias definiram, em cartas públicas, a engenharia de financiamento que oferecerão aos vencedores das próximas concessões ferroviárias e rodoviárias. No caso do programa ferroviário, o próximo passo, é a finalização da estrutura que dará às concessionárias a segurança em relação ao pagamento por seus serviços pela Valec. As discussões caminham no sentido de afastar atores governamentais dos processos de custódia e guarda dos R$ 15 bilhões em títulos públicos federais destinados a garantir os pagamentos: um grupo de bancos ficará responsável pela custódia dos títulos. Outra instituição — o agente fiduciário — seria o responsável pelo resgate, venda dos papéis e pagamento das prestações, em caso de atraso governamental.

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