Por parroyo

Com a disparada do dólar e dos juros futuros e o desabamento da Bovespa, os investidores iniciaram ontem um movimento de “precificação” da vitória de Dilma Rousseff já no primeiro turno. Eles foram para casa na sexta-feira sem saber da pesquisa Datafolha que quase dobrou a distância entre Dilma e Marina Silva e confiantes na publicação de denúncias escabrosas capazes de estremecer a candidatura petista. Não vieram. O que era sonho de fim de semana virou pesadelo de segunda-feira. O Ibovespa tombou 4,52%, o dólar saltou 1,64%, cotado a R$ 2,4557, maior preço desde 12 de dezembro de 2008, em pleno colapso de Wall Street, e, no pregão de juros futuros da BM&F, o contrato mais negociado, para janeiro de 2017, pulou de 11,88% para 12,35%.

Mas, atenção: a “precificação” de mais quatro anos de Dilma no Planalto apenas começou. O que aconteceu foi uma zeragem das apostas ultraotimistas assumidas no começo do mês de que a candidata do PSB tinha chances reais de concretizar a esperança dos mercados de ver o PT fora do poder. Essas posições vinham sendo reduzidas gradualmente desde do dia 8, quando se iniciou o processo de refortalecimento de Dilma, mas os investidores ainda acreditavam num segundo turno disputadíssimo, com Marina podendo ganhar. O dólar vinha subindo em sintonia com o aumento das inquietações, mas a curva futura dos juros, tendo como vértice os contratos para janeiro de 2017 e janeiro de 2021, ainda se mantinha inclinada negativamente, ou seja, a taxa para o primeiro contrato era maior que a do segundo.

Na manhã de ontem, a curva chegou a exibir uma trajetória positiva, quando o DI de janeiro de 2021 bateu na máxima de 12,39%, ante 12,36% para janeiro de 2017. No fechamento, a curva ficou plana: 12,35% para os dois contratos. Ou seja, subsiste alguma esperança de reviravolta de Marina. Ou, então, de um crescimento de Aécio Neves que o leve ao segundo turno. A oscilação do DI para 2021 mostra bem o vai-e-vem do estado de ânimo dos investidores: na sexta-feira, esse contrato fechou a 11,77%, já distante do piso de 10,82% alcançado no dia 2, mas ainda se sustentando longe dos 12%, limite que não se via desde junho. E ontem foi a 12,35%.

Os comportamentos extremados de ontem nem sequer refletiram a nova pesquisa CNT/MDA divulgada após o fechamento dos pregões. Segundo ela, Dilma cresceu de 36% para 40,4%, Marina caiu de 27,4% para 25,2% e Aécio subiu de 17,6% para 19,8%. Novidade: no segundo turno, a petista tem 47,7% e Marina 38,7%. Não há mais empate técnico, como ainda havia no limite da margem de erro do Datafolha (Dilma 47% e Marina, 43%).

O Banco Central parece não concordar muito com a afirmação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o comportamento exibido ontem pelos mercados tem mais a ver com o cenário internacional do que com o nervosismo desta reta de chegada das eleições. O BC não interveio ontem de manhã quando o dólar subia desarvoradamente em direção aos R$ 2,48. Se o atropelo fosse impulsionado por uma crise externa, o BC não teria a menor dúvida, como já fez em agosto de 2013 e fim de janeiro último, em atuar pesadamente para segurar a alta do dólar. Mas como ela resulta de uma agitação eleitoral, da cobertura de posições especulativas assumidas quando Marina Silva liderava as pesquisas de segundo turno, pode ser perfeitamente reversível.

O sossego do BC resulta de duas outras circunstâncias: 1) Não identifica crescimento na procura por hedge cambial, por isso não amplia a oferta de seus contratos de swap cambial, o instrumento oficial de provimento de proteção. A oferta de dólares ao mercado persiste em US$ 1 bilhão desde janeiro, metade da colocação feita entre agosto e dezembro. Se o BC enxergasse no movimento atual de alta consistência advinda de uma feroz realocação global de portfólio, já teria ampliado a oferta para os US$ 2 bilhões semanais com os quais iniciou o programa de intervenções cambiais, no dia 23 de agosto do ano passado. E, note-se, naquela época o dólar beirava os mesmos R$ 2,45 de ontem. 2) nem há saída de capital estrangeiro capaz de requerer a volta dos leilões de linhas de crédito em dólar com compromisso de recompra. No acumulado de setembro até o dia 19 (números mais atualizados saem amanhã), o fluxo cambial mostra superávit de US$ 3,43 bilhões, com destaque para o saldo positivo de US$ 2,32 bilhões pela conta financeira.

Não bastassem os dissabores trazidos pelas pesquisas eleitorais, o mercado leu ontem um Relatório Trimestral de Inflação (RTI) — documento de autoria do Copom que forma com as atas de suas reuniões a dobradinha essencial ao exercício do sistema de metas de inflação – típico de um Banco Central dilmista, um BC “mais à esquerda” do que a anterior gestão lulista. Foi exasperante para quem contava com Armínio Fraga ou Eduardo Gianetti. No RTI, apesar de reconhecer como pesadas as pressões inflacionárias, o Copom não manifesta nenhuma pressa ou urgência em trazer o IPCA de volta ao centro de 4,5% da meta de inflação. O texto reitera a disposição de manter a Selic congelada em 11% até o fim de 2015, apesar de o cenário de referência trazer projeções mais elevadas de IPCA.

No RTI anterior, de junho, previa-se inflação de 5,7% para dezembro de 2015, 5,4% em março de 2016 e 5,1% em junho. As estimativas estão mais altas agora – 5,8%, 5,6% e 5,3%, respectivamente – com a agravante de que a taxa de câmbio foi mantida defasada no confortável patamar de R$ 2,25. Mesmo ao final do horizonte de tempo abrangido pelo RTI de ontem — setembro de 2016 — a inflação, projetada em 5%, ainda não estará na meta de 4,5%.
Escandalizada, a ala mais linha-dura do mercado leu no documento que o BC não agirá monetariamente para enfrentar um cenário preocupante traçado por ele mesmo. Reconhece como fonte de risco “o comportamento das expectativas de inflação, impactadas negativamente nos últimos meses pelo nível elevado da inflação corrente, pela dispersão de aumentos de preços, e, sobretudo, por incertezas que cercam a trajetória de preços (gasolina) e de tarifas de serviços públicos (eletricidade e ônibus urbano)”.

O Copom também não ignora as pressões advindas da depreciação do real e dos realinhamentos de carteiras decorrentes da normalização da política monetária americana. O desconsolo dos analistas é o de que o BC do segundo mandato de Dilma não será diferente deste, mesmo que alguns nomes de sua diretoria mudem. Raciocinam que este RTI, embora escrito por um BC que desfruta de autonomia operacional, vale como um perfeito programa econômico de segundo mandato. Informa a falta de disposição do governo de fazer correções mais radicais nas grandes variáveis da política econômica.

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