O geógrafo britânico, David Harvey, visita o Brasil e faz uma análise sobre a motivação das manifestações populares que têm se multiplicado por todo o mundo

Por O Dia

Pouco menos de um mês depois das eleições mais disputadas da história do Brasil, que refletiram de forma direta as manifestações populares promovidas em diferentes partes da nação, o geógrafo britânico David Harvey, cuja linha de pesquisa une geografia urbana, marxismo e filosofia social, visita o país e defende que o principal indutor de insatisfação dos cidadãos em todo o mundo é a maneira como as cidades são geridas. Harvey, que atualmente é professor de antropologia da Universidade da cidade de Nova York, apresentou suas ideias durante palestra apresentada na tarde desta quarta-feira em São Paulo, intitulada “A economia política da urbanização”.

Em relação às manifestações que se espalharam pelo Brasil em junho do ano passado, Harvey considera a importância do preço da passagem como motivador, mas aponta que o maior foco de insatisfação da população é a questão da habitação, o que se relaciona de maneira direta com o tempo e a qualidade dos deslocamentos. “Existe uma demanda de residências pelos cidadãos, e isso é a raiz de uma nova crise. Vemos movimentos sociais que emergem desse processo. Nos últimos 15 anos, houve diversos nas principais capitais do mundo. E não é a versão clássica de protesto do proletariado. As demandas estão muito mais ligadas à vida no espaço urbano”, afirmou.

O professor aponta para a necessidade de as pessoas terem o direito de encontrar um lugar para morar perto dos seus trabalhos. “Essa dificuldade é um dos maiores problemas urbanos. Os empregos estão no centro da cidade e as casas populares nas periferias. Mas existem maneiras de lidarmos com isso. Na cidade de Nova York, por exemplo, um milhão de pessoas vivem em apartamentos de aluguel controlados, cujos reajustes têm de ser aprovados por uma comissão de moradia”, disse.

Sobre a cidade de São Paulo, o intelectual destaca a melhoria no sistema de transporte público. “É importante que os ônibus consigam se locomover. Percebemos algumas mudanças no modelo, com o aumento de corredores exclusivos. “Isso é uma estratégia importante, pois quanto mais eficiente é o sistema, as pessoas passam menos tempo no transporte e conseguem fazer outras coisas, o que se traduz em qualidade de vida. Essa é a base de um desenvolvimento decente para as cidades. Isso junto com moradia de qualidade, transporte, saúde e educação de graça. Não é verdade que as pessoas deixam de valorizar o que lhes é dado”, disse.

Harvey acredita que está acontecendo um movimento mundial de repúdio às decisões que são tomadas sem o envolvimento da população, o que chama de ‘sentimento de falta da democracia’. Para ele, esses protestos podem se alastrar em nível global e ganhar consistência. O professor palestrou ainda por outras quatro capitais brasileiras, em eventos que marcam o lançamento de seu novo livro, Para entender o Capital: Livros II e III, considerado um guia de leitura da obra máxima de Karl Marx.

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