Por diana.dantas
Publicado 05/11/2014 22:51 | Atualizado 06/11/2014 14:55

Não se fala de outra coisa. Ainda com dois anos de mandato pela frente, o presidente Barack Obama sofreu uma derrota humilhante nas eleições legislativas desta terça-feira. Os republicanos elegeram até mesmo o governador de Illinois, no berço político de Obama, e agora dominam o Congresso, com ampla maioria no Senado e na Câmara. Dias difíceis aguardam o atual ocupante da Casa Branca, que corre o risco de se tornar um pato manco (“lame duck”) bem antes do término do seu segundo período de governo.

Diante da derrocada, uma pergunta corre o mundo: o que houve com o político carismático que fez história e foi recebido em festa em dezembro de 2008 ao ser eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos? O que explica o desgaste de Obama?

Na visão de quem conhece os bastidores de Washington, Obama é vítima de seus próprios erros e omissões. Prometeu muito, mas entregou pouco, principalmente nos dois últimos anos. A cronologia negativa teria começado com a tentativa fracassada de adotar uma legislação mais rigorosa para a venda de armas. O projeto do governo não passou sequer pelo Senado, ainda nas mãos dos democratas. Com a economia andando de lado, vieram as crises envolvendo o novo sistema de saúde e os abusos da política de segurança nacional denunciados por Edward Snowden. No front externo, Obama mostrou falta de iniciativa em relação à divisão da Ucrânia e ao terrorismo do Estado Islâmico. No último caso, só agiu quando surgiram na internet as imagens de americanos sendo decapitados. Hoje, ele é responsabilizado até pelos primeiros casos de Ebola nos EUA.

Não bastasse a maré baixa, Obama vive a síndrome do segundo mandato. Outros presidentes, como George W. Bush, Ronald Reagan e Bill Clinton, também concluíram o último período sem maioria no Congresso. Mantendo a tradição, os republicanos retomaram a hegemonia no Senado que haviam perdido em 2006. Estavam certos, portanto, os candidatos democratas que não queriam a participação de Obama na campanha. Na história recente do Brasil, o segundo mandato também foi sinônimo de problemas. Fernando Henrique, que enfrentou o racionamento de energia e a desvalorização do real, não conseguiu eleger seu sucessor. Lula sofreu com os respingos do mensalão do PT, mas foi beneficiado pelos bons resultados da economia brasileira em meio à crise internacional. Graças a seu carisma e ao êxito dos programas sociais, fez de Dilma a primeira mulher presidente do país.

Mas o que pode acontecer com Dilma Rousseff? Por aqui, a economia inspira cuidados e o ambiente no Congresso também não é dos melhores. O atual presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, deixará Brasília após 11 legislaturas consecutivas e atribui ao corpo mole de Lula sua derrota na disputa pelo governo do Rio Grande do Norte. A partir de 1º de fevereiro, a presidência da Casa poderá ser ocupada pelo deputado Eduardo Cunha, que não morre de amores pelo PT e vice-versa. No Senado, Renan Calheiros sentiu-se desprestigiado com o afastamento de Sérgio Machado do comando da Transpetro. E ameaça retaliar.

Nosso sistema político não é bipartidário, mas quem garante a governabilidade é o PMBD, como disse o vice-presidente Michel Temer ao Brasil Econômico. Dilma tem pela frente o desafio de assegurar a maioria na Câmara e no Senado. A exemplo de Obama, ela deve se preparar para uma convivência atribulada com o Legislativo. No segundo mandato, tudo é mais complicado.

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