Por diana.dantas
Publicado 05/11/2014 22:25 | Atualizado 06/11/2014 11:16

Lendo nos últimos dias sobre as novidades nas formas de pagamentos, oferta fácil de crédito, aumento da taxa básica de juros, taxa recorde de inadimplência, propagandas que oferecem crédito até para quem já está com o nome negativado, o que eu acho uma enorme falta de ética, enfim, esse bombardeamento de todos os lados para que utilizemos crédito junto com as notícias da economia torna o cenário preocupante.

As classes C e D entraram no mercado de consumo e todos, varejo e financeiras, estão doidos para pegarem esses clientes. Tudo bem lutar por novos clientes, mas, em contrapartida, as empresas deveriam fazer ofertas claras, dizer honestamente o que cobram de encargos, não embutir taxas, fazer contratos compreensíveis, atender os problemas de pós-venda, e não emprestar, se já sabem que o consumidor está no limite das suas despesas. As empresas também têm que ter responsabilidade social ao emprestar dinheiro.

A oferta de crédito chega pelo telefone, pela TV, praticamente te agarram nas ruas, e os anúncios salientam a facilidade de contratar, de receber logo o dinheiro e a felicidade que é poder gastar esse dinheiro. Os anúncios oferecem empréstimo pagando somente R$ 300 por mês no prazo de 72 meses. A pessoa gasta o que pegou emprestado em um mês e leva seis anos para pagar. O consumidor tem que ficar mais atento para não cair neste tipo de propaganda, tem que exigir o contrato, ler e fazer as contas de quanto vai pagar, não pode contratar empréstimo como compra pão de sal, que nem rótulo tem.

Um levantamento da Serasa Experian, que traçou o Mapa da Inadimplência no país no primeiro semestre deste ano, tomando por base todos os municípios brasileiros com população acima de mil habitantes, mostra que, quando são avaliadas as dívidas atrasadas há mais de 90 dias e com valores acima de R$ 200, os inadimplentes somam 35 milhões de pessoas, quase um quarto da população (24,5%). A região que concentra mais inadimplentes é a Norte, com 31,1%, seguida pelo Centro-Oeste, com 26,4%, depois vem a região Sudeste, com 24,5%, e a Nordeste,com 23,6%. A região Sul é a que menos apresenta inadimplentes: 22,4% da população.

Estes números mostram que a maior inadimplência está exatamente nas regiões onde as classes C e D mais ascenderam no mercado de consumo. Está claro que é preciso ajudar esse consumidor a entrar no mercado financeiro sem começar já enfrentando inadimplência e renegociações de dívidas. As empresas que oferecem crédito para estas faixas da população deveriam também se responsabilizar por oferecerem educação financeira, dando cursos, palestras, mostrando o contrato. As instituições financeiras deveriam ser parceiras de seus consumidores, construindo uma relação de confiança entre gerentes e clientes, orientando com honestidade. A gente só vê isso na propaganda, mas no dia a dia das agências, o cenário é de empurrar empréstimos e não explicar muito, com o único objetivo de bater a meta.

Um dos momentos de maior fragilidade é quando a pessoa se aposenta. No dia seguinte começa a receber várias ligações, de diversos bancos, oferecendo empréstimos consignados, cheque especial, seguros, etc. Quem autorizou o uso das informações de quem está se aposentando? O segundo parágrafo do artigo 43 do Código de Defesa do Consumidor diz que “a abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele”. Algum banco ou financeira ou empresa de varejo cumpre isso? Nunca autorizei nenhum banco a usar meus dados para me oferecer nada. Se autorizei, fui induzida a isso, nunca me perguntaram. Mas estou sempre recebendo propostas.

Muita gente se deixa atrair porque o consignado apresenta as menores taxas de juros, 1,81% para aposentados e pensionistas do INSS, de 2.07% para servidores da ativa e de 2,39% para trabalhadores privados, contra 11,5% da Selic. Segundo dados da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), o consignado movimenta R$ 152 bilhões ao ano, e representa 62% do crédito no país. O inferno do consumidor é se livrar desse empréstimo. Os problemas mais recorrentes nesta área são a dificuldade de obter o contrato, cobrança abusiva de juros e encargos, negativa de quitação antecipada e dificuldade para fazer a portabilidade.

Outra forma de crédito, também muito oferecida, são os cartões de crédito. Há três meses no ar, o portal www.consumidor.gov.br, da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), mostra que cartões (de loja, de crédito, de débito) já é o terceiro assunto mais reclamado, com 7,6% das queixas, depois de aparelhos celulares (em primeiro lugar, com 9,2%) e telefonia móvel pós-paga, com 8,4%. E os problemas mais reclamados com cartões são: dificuldade de renegociação e parcelamento da dívida (23,1%); contestação de cobrança, saque não reconhecido (15,7%); cobrança de tarifas, taxas não informadas (14%). Mas, o pior não é isso. Na hora de reclamar é que o consumidor sofre mesmo. Nesta área de cartões, 47,3% reclamaram dos Serviços de Atendimento ao Cliente (SAC) por demanda não respondida ou não resolvida; 17,9% se queixaram de má qualidade no atendimento; e 11,4% tiveram dificuldade de cancelar o serviço.

Como se vê, crédito é fácil de entrar e muito, muito difícil de sair. Por isso, os consumidores têm de ser mais responsáveis ao contratar e as empresas mais responsáveis ao oferecer. As despesas vão aumentar, os reajustes de energia e gasolina vão pressionar os preços. É hora de aprender a lidar com o seu orçamento, poupar para crescer e de ter muito, muito cuidado com o crédito.


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