Por diana.dantas

A itensa volatilidade e fraco giro de negócios marcaram ontem um mercado de câmbio ávido por conhecer os rumos da política econômica em um segundo mandato que a presidente Dilma Rousseff se recusa a antecipar. Durante a sessão, o dólar chegou a cair 0,28%, cotado a R$ 2,4934, e a subir 1,34%, a R$ 2,5337, e fechou com valorização modesta de 0,20%, vendido a R$ 2,5054. A oscilação e o acanhado volume de negócios (US$ 900 milhões) denunciaram a presença exclusiva de profissionais.

Mesmo diante de um mercado de baixa liquidez (o afastamento de investidores tradicionais favorece a atuação dos especuladores) e alta tensão, o Banco Central decidiu reduzir a oferta de contratos de swaps cambiais destinados a meramente rolar os antigos que irão vencer em 1° de dezembro. É uma tentativa de apagar incêndio injetando gasolina?

O BC iniciou ontem a renovação dos US$ 9,831 bilhões em títulos cambiais que serão liquidados em dezembro. A sinalização foi de que de ontem até o fim de novembro irá vender todos os dias nove mil swaps com esta finalidade. Como cada lote corresponde a US$ 450 milhões, encerrará novembro com uma colocação de US$ 8,1 bilhões, o suficiente para rolar apenas 82% do vencimento. Tal intenção representa uma mudança de política cambial em relação à que foi praticada em setembro e outubro, meses em que a rolagem foi integral. Ou seja, o BC vai negar proteção cambial a quem (empresas endividadas em dólar e investidores que não querem correr o risco cambial) já está hedgeado no montante de US$ 1,731 bilhão.

Empresas e investidores terão de substituir essa proteção já formada por outros instrumentos de mercado ou por meio da compra à vista de moeda. Trata-se, em suma, de um convite à valorização do dólar. Então isso quer dizer que o BC acha pouco que o dólar tenha subido 12,5% apenas de setembro para cá?

Qual a sua intenção ao diminuir a oferta de swaps? O mercado não sabe, o que é ótimo para os que lucram com a volatilidade resultante da incerteza. Mas lança algumas hipóteses. A primeira é que o BC confia na continuidade do ingresso de capitais externos de investimento, o responsável pela geração de um superávit de US$ 6,5 bilhões na balança cambial de outubro. Não só confia: agiu destemidamente nesse sentido ao elevar a Selic de 11% para 11,25% três dias depois do segundo turno das eleições. A entrada adicional de dólares de portfólio compensaria a falta daquele US$ 1,731 bilhão.

A segunda é que o BC, mesmo ciente das consequências inflacionárias do câmbio depreciado, decidiu avalizar o novo patamar, tido como mais adequado ao enfrentamento de outros graves problemas econômicos. Ele já estaria agindo em conformidade com teses recentemente defendidas por um dos candidatos mais fortes para ocupar o Ministério da Fazenda. Nelson Barbosa propõe a estabilização em patamar elevado da taxa de câmbio real para reduzir o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, diminuir o custo unitário do trabalho em dólar e aumentar a competitividade externa da economia. Os seus efeitos inflacionários, suavizados por um superávit primário de 2% do PIB e uma política monetária compensatória, seriam de curto prazo.

“À medida que a taxa de câmbio real se estabiliza num novo patamar, o impacto inflacionário da depreciação cessa e a inflação cai no médio prazo”, disse o economista em seminário da FGV-SP, escola da qual é professor, realizado em meados de setembro.

A ideia é substituir dois fatores — expansão fiscal e prioridade ao mercado de trabalho — geradores de inflação e que a experiência recente vem mostrando serem incapazes de produzir crescimento econômico por um terceiro (a manutenção de uma taxa real de câmbio depreciada) que, embora igualmente incentivador de inflação, mas de curto prazo, pode reorganizar a economia. Restaria equilibrar a política industrial composta hoje pela dupla vertente desoneração fiscal e crédito subsidiado. Para o mercado, a melhor política industrial é aquela que não existe. Basta assegurar um câmbio competitivo e liberalizar as concessões públicas.

A suposta permissão dada ontem pelo BC para que o câmbio encontre uma faixa mais adequada aos setores externo e industrial veio justamente num dia de divulgação de notícia triste para a indústria. Após dois meses em recuperação, a produção industrial brasileira caiu 0,2% em setembro, um resultado exatamente do tamanho da expectativa dos analistas mas em sentido contrário. No acumulado do ano a queda alcança 2,9% e, em doze meses, de 2,2%. “Não há qualquer sinalização clara de reversão desta situação. Pesa também o início de um novo ciclo de alta dos juros pelo Copom. As perspectivas para a já fraca atividade no país não são animadoras”, constata o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

A atividade débil não fará o BC suavizar o aperto monetário. Este é o entendimento do pregão de juros futuros da BM&F. As taxas operaram em alta firme pelo terceiro dia em sequência. Os contratos longos subiram mais que os curtos, sinal de que tesoureiros e gestores não confiam na implementação da principal reivindicam dos investidores — um ajuste fiscal ortodoxo e severo. Enquanto a taxa para janeiro de 2016 subiu apenas 0,03 ponto, de12,31% para 12,34%, o contrato para janeiro de 2021 pulou 0,13 ponto, de 12,14% para 12,27%.

Informes sobre baixo crescimento também deram o tom dos mercados globais. A Comissão Europeia revisou para baixo suas estimativas de crescimento dos países da zona do euro este ano. Ao invés do avanço de 1,2% previsto anteriormente, agora a entidade projeta 0,8%. Nos EUA, não foi diferente. Dados ruins sobre a balança comercial devem implicar numa revisão menos otimista sobre o crescimento do PIB. Os EUA registraram um déficit comercial de US$ 43 bilhões em setembro, acima da previsão dos especialistas, de US$ 40,6 bilhões. Como a preliminar do PIB referente ao terceiro trimestre, alta de 3,5%, embutia um déficit de apenas US$ 38,1 bilhões, na segunda leitura a expansão deve ser menor.

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