Por karilayn.areias

Rio - Já era sabido por cientistas que alterações no comportamento de animais sinalizam, com horas ou dias de antecedência, eventos naturais, como os terremotos. Mas o fenômeno foi documentado numa nova pesquisa, divulgada na semana passada, mostrando que aves e pequenos mamíferos do Parque Nacional Yanachaga, no Peru, se ‘refugiaram’ cerca de cinco dias antes do terremoto Contamana, de 7 graus na escala Richter, ocorrido em 2011 nos Andes peruanos.

No Nepal%2C milhares de pessoas morreram semana passada num terremoto. Estudos buscam diminuir as perdas de vidas em tragédias assimReuters

A ideia, no futuro, é observar o comportamento dos animais para, com base nele, poder alertar os humanos e prevenir mortes, como as cerca de seis mil ocorridas há uma semana no terremoto do Nepal, na Ásia.

O estudo foi realizado por Rachel Grant, da Anglia Ruskin University, do Reino Unido; Friedemann Freund, da Nasa (Agência Espacial dos Estados Unidos); e Jean-Pierre Raulin, do Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie, no Brasil. Artigo relatando o estudo foi publicado na revista ‘Physics and Chemistry of the Earth’.

Especialmente noticiada no passado foi a ‘disparada’ dos elefantes asiáticos para terras altas, por ocasião do terremoto seguido de tsunami de dezembro de 2004. Muitas vidas humanas foram salvas graças a isso.

Raulin, físico e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que participou do novo estudo, conta que, na experiência peruana, os animais foram monitorados por um conjunto de câmeras. “Para não interferir em seu comportamento, essas câmeras eram acionadas de forma automática no momento em que o animal passava na sua frente, registrando a passagem por meio de flash de luz infravermelha”, detalhou o pesquisador à agência Fapesp, instituição que apoiou o estudo.

Em um dia comum, cada animal era avistado de cinco a 15 vezes. Porém, no intervalo de 23 dias que antecedeu o terremoto, o número de avistamentos por animal caiu para cinco ou menos. E, em cinco dos sete dias imediatamente anteriores ao evento sísmico, nenhum movimento de animal foi registrado pelo sistema de filmagem dos pesquisadores.

Por que os bichos fogem?

O mutum-cavalo é ave típica da região sob estudo%2C nas florestas do Peru. Chegam a medir até 89 cm Reprodução Internet

Formação maciça de íons positivos, devido à fricção subterrânea das rochas no período anterior ao terremoto, teria provocado a alteração comportamental dos animais. A maior concentração de íons positivos na atmosfera provoca, em animais e humanos, aumento dos níveis no sangue de serotonina, substância que atua no cérebro. Isso leva à chamada “síndrome da serotonina”, caracterizada por agitação, hiperatividade e confusão. O fenômeno é semelhante à inquietação, perceptível em humanos, que ocorre antes das tempestades, quando a concentração de elétrons nas bases das nuvens também provoca acúmulo de íons positivos na camada da atmosfera próxima ao solo, gerando intenso campo elétrico. “A hipótese é que, para se livrar de sintomas indesejáveis da síndrome da serotonina, animais fogem para áreas onde a ionização não é expressiva”, explicou Raulin.

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