Secas e cheias extremas fazem Amazônia sofrer

Estudo mostra que, com mudanças climáticas, população tem dificuldades para obter água potável e também para chegar a hospitais, escolas e mercados

Por O Dia

Rio - Secas e cheias são fenômenos naturais na Amazônia. Nos últimos anos, porém, com as mudanças climáticas, eles têm se tornado mais extremos, deixando moradores cada vez mais sujeitos à escassez de água e alimentos, e sem acesso a transporte, serviços de saúde ou de ensino. As conclusões são de estudo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

Incêndios são comuns na regiãoReprodução

Os principais impactos da seca observados foram a alta mortalidade dos peixes (principal fonte de proteína na região) e das plantações, além da falta de água potável. A interrupção no principal meio de transporte – o fluvial – dificulta o acesso dos moradores aos mercados e, portanto, aos alimentos. Além disso, impossibilita a chegada a hospitais e escolas.

Durante as cheias também há escassez de água potável e maior dificuldade na pesca, pois os cardumes ficam mais espalhados, segundo Patricia Pinho, professora visitante do IAG-USP e associada da rede Incline de pesquisas interdisciplinares em mudanças climáticas. Segundo ela, as enchentes observadas destruíram casas, prejudicaram atividades extrativistas, mataram animais de criação e plantações, e causaram surtos de doenças como malária e diarreia. Os dados foram apresentados na Fapesp Week UC Davis in Brazil – evento que reuniu mês passado 26 cientistas em Davis, Estados Unidos.

O estudo foi feito no município de Silves (AM), a 400 km de Manaus, e na Floresta Nacional do Tapajós (Flona), área de preservação no Estado do Pará. A cientista avaliou como moradores perceberam as secas extremas de 1997, 2005 e 2010, e as enchentes severas de 2006, 2009 e 2015. Segundo Patricia, os moradores acompanham o ritmo de subida e descida dos rios e são capazes, “até certo ponto”, de saber se o período de seca e de cheia será severo e se há necessidade de se mudar ou adotar outra medida.

“Mas esses eventos avaliados foram além de suas capacidades de adaptação e, como aconteceram muito perto uns dos outros, ficou mais difícil para os ribeirinhos a recuperação”, contou à Agência Fapesp.

“A economia da bacia amazônica – onde moram 30 milhões de pessoas – está diretamente associada à dinâmica do ciclo hidrológico. O fluxo dos rios determina a organização dos assentamentos humanos, a posse da terra, o sistema de produção e a organização social. Qualquer alteração nas provisões do ecossistema causam uma pressão imediata sobre essa população, na qual o índice de pobreza é bem maior que a média do país”, afirmou.

Estudo detecta falha em ações de prevenção e socorro

Um problema apontado pela pesquisa é a demora do poder público para oferecer suporte aos moradores. Segundo ela, a Defesa Civil seria a responsável por ações preventivas e por prestar apoio durante as emergências. “Mas observamos a falta de pessoas capacitadas e atraso nas ações. Não há medidas preventivas. As autoridades municipais precisam solicitar auxílio à esfera estadual, que repassa a petição à esfera federal e só então o suporte é liberado. É preciso criar mecanismos para acelerar esse processo”, disse Patricia Pinho, segundo a Agência Fapesp.

A pesquisadora ressalta a necessidade de políticas públicas para garantir o bem-estar das populações, bem como investimentos em estradas e meios de transporte alternativos, escolas e perfuração de poços. “Os brasileiros estão acostumados a associar eventos extremos como a seca à região Nordeste, mas agora a Amazônia também está sendo impactada e a resposta governamental é muito limitada”, critica.

Ela também aponta a necessidade de pesquisas que aperfeiçoem os modelos climáticos, tornando-os capazes de prever eventos extremos, e a criação de sistemas de alerta.

As secas de 1997 e 2010 estão relacionadas com o fenômeno El Niño (aquecimento anormal no oceano Pacífico Tropical). Já em 2005 houve anomalias de temperatura no Atlântico Tropical Norte. As enchentes foram relacionadas com o La Niña (resfriamento do Pacífico Equatorial Central e Oriental).

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