Rio - Os recursos financeiros destinados à gestão das águas estão sendo repassados corretamente entre os órgãos e esferas públicas? A sociedade e os comitês de bacias hidrográficas estão participando de forma ativa das discussões e das decisões referentes à água? Os comitês de bacias conseguem implementar seus planos e recuperar a qualidade e quantidade das águas? Foi para conseguir respostas para essas e outras perguntas que a World Wildlife Foundation no Brasil (WWF-Brasil) criou o primeiro Observatório de Águas do Brasil, que entrou em operação no início de julho. O objetivo é monitorar os recursos hídricos em todo o território nacional e também garantir que a água seja tema estratégico na agenda social e política brasileira.
O observatório conta com a participação de mais de 40 instituições parceiras do WWF-Brasil em todos os estados do país, desde universidades, secretarias de estado de Meio Ambiente, comitês de bacias hidrográficas, instituições privadas, organizações não-governamentais e órgãos gestores.
A preocupação com os recursos hídricos não é gratuita. Dados oficiais mostram que apenas 40% de todo o esgoto nacional é tratado — segundo o WWF-Brasil, pelas metas estabelecidas na virada do milênio, esse índice já deveria estar em 50%. Além disso, o país desperdiça cerca de 38% na distribuição de água, de acordo com levantamento feito pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes).
“A água possui valor estratégico para a sustentabilidade social, econômica e ambiental, por isso não podemos descuidar de sua gestão em momento algum. Temos que estar atentos sempre para garantir água de qualidade e em boa quantidade, tanto agora quanto para as futuras gerações”, afirma o analista de conservação do WWF-Brasil, Angelo Lima.
“É uma iniciativa que junta várias pessoas e pretende responder os desafios contemporâneos da governança da água — ou seja, verificar se os órgãos públicos têm feito investimentos financeiros e de recursos humanos de forma correta”, explica o coordenador do Grupo de Estudos Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, Pedro Jacobi.
Leis não são aplicadas no Brasil
A crise hídrica que afeta o abastecimento de grandes cidades brasileiras — a situação de São Paulo talvez seja o exemplo mais claro e poderoso — chamou a atenção para o quanto a poluição de grandes mananciais próximos a centros urbanos impossibilita utilizá-los como alternativas viáveis para combater esse problema.
“Veja, por exemplo, o caso da Represa Billings. Ela tem 1,2 bilhão de metros cúbicos e poderia servir como alternativa ao Sistema Cantareira — que abastece São Paulo e tem enfrentado problemas sérios de desabastecimento. No entanto, como não houve cuidado no monitoramento das águas em seu interior, ela está tão suja, que um trabalho de tratamento e despoluição quase beira a impossibilidade, de tão caro que seria”, analisa o coordenador do programa Água Para Vida do WWF-Brasil, Glauco Kimura de Freitas.
“O Brasil enfrenta uma crise hídrica e a raiz desse problema está na falta de gestão e na ausência de aplicação das leis que tratam desse assunto”, finaliza o especialista.