Por bferreira

Rio - ‘Nós não precisamos de muita coisa. Só da nossa terra, nossa tribo e cultura. Pisamos o chão com pés descalços porque fazemos parte da natureza. Lembrem-se de nós.” O discurso do cacique Daniel, da tribo guarani Jeroky Acico, marca o novo momento vivido pelos indígenas da fronteira entre Brasil e Paraguai, na região de Foz do Iguaçu, no Paraná. Atualmente, são 400 famílias que plantam, pescam e vendem artesanato aos turistas que lotam as Cataratas do Iguaçu. Uma realidade bem diferente de mais de 40 anos atrás.

Índios da tribo guarani Jeroky Acicoq resgatam suas origens e%2C além de plantar e pescar%2C vendem artesanato a turistas que visitam Foz do IguaçuDivulgação

Quando o lago da hidrelétrica de Itaipu foi formado, nas décadas de 70 e 80, eles perderam o direito de viver nas terras dos antepassados. Muitos migraram para o Paraguai ou foram levados para outras regiões do estado. Em 1997, a empresa Itaipu Binacional realizou um censo e descobriu 18 famílias remanescentes, vivendo de favores e esmolas, com crianças subnutridas, uma delas em CTI. “Com a construção da usina, o governo militar acreditava que não poderia haver reservas indígenas na região da tríplice fronteira, entre Brasil, Paraguai e Argentina, por uma questão de segurança nacional. Então eles foram dispersos”, detalha o superintendente de Meio Ambiente da Itaipu Binacional, Jair Kotz.

A volta da posse da terra aos seus primeiros habitantes faz parte do conjunto de intervenções do programa Cultivando Água Boa (CAB), parceria de hidrelétrica com 29 prefeituras locais, premiado este ano pela Organização das Nações Unidas (ONU) por iniciativas sociais e ambientais, como o reflorestamento de margens de rios. Como O DIA noticiou na quinta-feira, o CAB será aplicado nas reservas hídricas de São Paulo e Rio de Janeiro, estados que passam por crise de abastecimento, segundo antecipou o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu.

“Aqui não tem branco dizendo o que o índio tem que fazer. Eles sabem o que fazer na natureza. Eles pertencem à natureza, não se adonam dela, como o homem branco”, ressalta Nelton Friedrich, diretor de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu. “Na última safra, os índios colheram 170 toneladas de mandioca orgânica e produzem mel.” Três tribos guaranis ocupam atualmente uma área de 2.191 hectares de terra onde recebem apoio do CAB, em conjunto com a Igreja Católica, nas áreas de técnicas de agricultura familiar, escolas públicas para as crianças e cuidados médicos.

Aproveitamento de água da chuva ajuda economia

Um dos projetos mais simples e eficientes do programa Cultivando Água Boa (CAB), da empresa Itaipu Binacional com 29 prefeituras do Paraná, é a coleta de água da chuva. No município de Marechal Cândido Rondon, 473 propriedades rurais consomem mais água que todo o resto da população, de 48,6 mil habitantes. A produção leiteira e a criação e abate de bovinos, suínos e aves exige o gasto.

“São 10 mil litros de água por dia em uma fazenda, enquanto o consumo médio de uma família é de 130 litros. Já instalamos cisternas para 500 mil litros de água de chuva em três propriedades e os resultados são promissores. O município quer estender o projeto a todos os criadores em curto prazo”, explicou o técnico ambiental Fábio Rego.

O plano tem custo total de R$ 121 mil e a Itaipu entrou com pouco mais da metade: R$ 68 mil. Segundo prefeito de Marechal Cândido Rondon, Moacir Froehlic, toda a população é beneficiada. “Quando aproveitamos a água da chuva para os criadores, diminuímos o impacto sobre o sistema de saneamento municipal, que já estava sendo comprometido pela alta demanda da produção de carne e leite”, explica.

O repórter viajou a convite da Hidrelétrica Itaipu Binacional

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