Tragédia em Mariana: Uma ferida que levará 10 anos para cicatrizar de vez

Especialistas estimam tempo para a natureza se regenerar após rompimento da barreira. Na Região Serrana do Rio, a tragédia mudou o mapa

Por O Dia

Rio - Como uma grande ferida aberta, a natureza em Mariana (MG) e na Região Serrana do Rio levará anos para cicatrizar e voltar a ser como antes. Assim como os moradores que vão demorar para superar a tragédia que devastou o distrito de Bento Rodrigues, os municípios de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, até hoje, quatro anos depois, ainda não se recuperaram das chuvas que devastaram a região, provocando a morte de mais de 900 pessoas.

Rompimento da barragem em Mariana levou toneladas de lama para rios de Minas e do Espírito Santo%2C destruindo a fauna e flora da regiãoEfe

Para o geógrafo do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Uerj, Hugo Portocarrero, será necessário pelo menos uma década para a natureza se regenerar parcialmente. A recuperação plena é difícil prever, uma vez que o desastre ambiental, nas duas regiões, mudou o curso de rios, destruiu plantações e provocou mortandade de espécies. “Um desastre dessa proporção altera o relevo. Sozinha, a natureza levará muito tempo. Será preciso que o homem intervenha e faça o reflorestamento das áreas atingidas”, afirma. O que, diz ele, não foi feito na Serra. “Desassorearam os rios e fizeram contenção de encostas. Mas não foi feito reflorestamento.”

O especialista espera que as duas tragédias sirvam de alerta. “Obras gigantescas como as que vêm sendo feitas implicam riscos da mesma magnitude. Infelizmente, não havia nenhum plano de contingência”, destaca o especialista, lembrando que, enquanto na Serra o acidente foi um fenômeno geológico, em Minas foi geotécnico. “A cada 50 anos, ocorrem acidentes ambientais que levam ao surgimento de morros e encostas. Em Mariana, foi diferente. Houve ruptura de barragem por negligência governamental”, diz Portocarrero. Ele explica que a tendência é que, com o tempo, o solo aproveite o material que veio com a lama, como o ferro.

Para o biólogo Leonardo Freitas, da Mosaico Ambiental, especializado em gestão de desastres, a reocupação das áreas vai depender do poder público e da empresa Samarco, que teve R$ 300 milhões bloqueados pela Justiça para pagamento de indenizações às vítimas e foi multada em R$ 250 milhões por danos ambientais — punição esta divulgada pela própria presidenta Dilma Rousseff. “Nunca mais vai voltar a ser o que era. A tragédia foi muito grande. Os rios foram assoreados. A natureza não vai se recuperar 100%. Com o tempo, a correnteza vai levando os sedimentos e o homem vai voltar a ocupar o espaço. Mas parte desses detritos nunca será retirada”, avalia.

Na Serra, mortes seriam evitadas

Mapeamento feito logo após a catástrofe na Região Serrana pela empresa Mosaico Ambiental, comparando imagens de satélite, mostrou que 70% das edificações destruídas pela enxurrada no Vale do Cuiabá, em Petrópolis, estavam em áreas de preservação permanente e que, portanto, não deveriam estar ali. “Se a legislação da época de ordenamento territorial tivesse sido respeitada, mais da metade das mortes poderiam ter sido evitadas”, constata o biólogo Leonardo Freitas. Na avaliação dele, os mais vulneráveis são as populações de baixa renda que ocupam encostas e as margens de rios, onde ocorrem deslizamentos e inundações.

Segundo o ecologista Sérgio Ricardo, em Minas Gerais existem atualmente cerca de 600 barragens de rejeitos e resíduos industriais e minerários classificadas como de alto risco ambiental. “Esta grave situação de risco tem sido literalmente ‘empurrada com a barriga’ há décadas”, denuncia.

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