Por monica.lima

Imaginem se desse a louca na presidente Dilma Rousseff e ela mandasse prender Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves por conspirarem contra o seu governo. Os dois teriam as residências invadidas pela Polícia Federal e seriam levados para a prisão, sob o olhar complacente do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e com apoio de ministros do Supremo Tribunal Federal, dóceis aos desejos de Dilma. A tentativa de calar a boca da oposição na marra representaria uma agressão à democracia e seria rechaçada pelos países que trazem em sua Constituição, como cláusula pétrea, o princípio da liberdade de expressão. Obviamente, não há o que temer. Vai longe o tempo da ditadura e o autoritarismo não nos ameaça mais. Aqui, vive-se o primado do Estado de Direito, como ressaltou a presidente Dilma, ao se referir às reações contra as mudanças no seguro-desemprego: “Ninguém acha que um país democrático como o Brasil, que tem um Congresso livre, que tem movimentos sociais sendo ouvidos, com os quais você dialoga, seja algo fechado, que não há negociação”.

Graças a muita luta e resistência (inclusive da jovem Dilma Vana Rousseff), os políticos brasileiros podem falar o que bem entendem. Foi o que aconteceu na sexta-feira passada quando Fernando Henrique rebateu de forma contundente um comentário da presidente sobre a Operação Lava-Jato. Com base no depoimento no qual o ex-gerente da estatal Sérgio Barusco revelou ter recebido propina desde 1997, Dilma afirmou que, se os desvios tivessem sido investigados e punidos em 96 e 97, Barusco não teria praticado atos de corrupção por quase 20 anos. “A impunidade leva água para o moinho da corrupção”, disse ela. Atingido pela crítica, FHC desceu de sua habitual torre de marfim, disse que Dilma zomba da inteligência do povo e recorreu a uma velha anedota na réplica. Para ele, a presidente adota “a tática infamante do punguista que mete a mão no bolso da vítima, rouba e sai gritando ‘pega ladrão!”.

Aguarda-se, agora, a tréplica de Dilma, que certamente vai responder no mesmo tom. É assim que funciona a democracia. Por isso mesmo é muito difícil entender o silêncio do Palácio do Planalto diante do que acontece na Venezuela. Nicolás Maduro, a cópia caricatural de Chávez, mergulhou seu país numa crise econômica violenta, com inflação, desemprego e desabastecimento. A queda nos preços do petróleo agravou ainda mais o quadro e se torna concreta a possibilidade de o governo sair derrotado nas próximas eleições legislativas. Encurralado, Maduro vê fantasmas no ar. Dizendo-se alvo de uma conspiração articulada pelos Estados Unidos, decidiu atacar os adversários com “punho de ferro”. Já existem na Venezuela perto de 60 presos políticos, entre eles, o líder da oposição Leopoldo López. O mais recente foi o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma. Denunciado por suposta participação numa tentativa golpe contra o presidente, pode ser condenado a 25 anos de prisão.

Na cerimônia em que recebeu as credenciais do novo embaixador da Venezuela, a presidente Dilma explicou que não pode receber um embaixador baseada em “questões internas do país” e se negou a falar sobre a prisão do prefeito Ledezma. Na verdade, apesar das cláusulas democráticas que regem o Mercosul, o Brasil está fechando os olhos às truculências de Maduro. Imaginem se a moda de calar a oposição pega nos países da América do Sul.

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