Por O Dia

Na década de 70, talvez como sequela da repressão imposta pela ditadura militar, muitos jovens sentiram-se deprimidos e sem motivação para enfrentar a rotina de estudos e trabalho. Alguns, em meio à crise existencial, batiam à porta de psicanalistas para consultas iniciais. Haveria ou não necessidade de acompanhamento? Ouviam como resposta uma imagem muita comum na época. Dizia-se que o potencial paciente até que conseguia identificar seus problemas, mas isso não era suficiente. Era, mais ou menos, como ler um livro muito próximo do rosto. As letras apareciam diante dos olhos, mas sem a devida clareza. Alguém de fora teria melhor compreensão do texto. E conseguiria interpretar o que se passava no íntimo do rapaz ou da moça em crise. Estava na hora de recorrer à psicanálise. Ou em sessões individuais ou de grupo, dependendo do quadro de cada um.

Pelo que se viu na festa dos 35 anos de fundação do PT, em Belo Horizonte, os petistas estão vivendo situação muito parecida com a dos jovens dos anos 70. Conseguem identificar os males que desgastam o partido, mas se mostram totalmente equivocados ao fazer o diagnóstico. Ou precisam de um bom analista ou simplesmente se negam a enxergar a realidade. Nesta última hipótese, deveriam ouvir a sabedoria popular: pior cego é o que não quer ver. Essa é a única explicação para as declarações surpreendentes do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff em BH, sem falar nos aplausos do Diretório Nacional para o tesoureiro João Vaccari Neto, que acabara de ser conduzido à força para um depoimento na Polícia Federal. Pesa contra Vaccari a denúncia de ter recebido US$ 50 milhões na rede de corrupção da Petrobras.

Ao defender Vaccari, Lula cometeu uma frase que entra desde já para o folclore da política: “Na dúvida, fique com o companheiro”. Apropriou-se do jargão jurídico “in dubio pro reo”, mas, pelo que revela a apuração da PF, não há muita dúvida sobre as relações do tesoureiro do PT com o propinoduto de Renato Duque e Paulo Roberto Costa. Dificilmente, Vaccari escapará do processo. Lula foi mais longe e disse que, à semelhança do julgamento do mensalão, o PT está novamente sendo vítima de ações políticas. Também reclamou do que considera “criminalização da sigla por parte da imprensa” e fez um chamado estranho: “Não podemos permitir que quem não tem moral venha dar lição de moral na gente”. A quem Lula se referiu? Aos tucanos ou ao trabalho eficiente do Ministério Público, do juiz Sérgio Moro e da Polícia Federal? De quem o ex-presidente suspeita?

Se Lula age como um pai benevolente que absolve os filhos desgarrados, a presidente Dilma considera-se alvo de uma conspiração golpista. “Nós temos força para resistir ao oportunismo e ao golpismo, inclusive quando se manifesta de forma dissimulada”. Depois de pedir aos militantes que preservem a história do partido, de seu governo e do governo Lula, ela afirmou que a Petrobras não pode ser classificada como “uma vergonha do Brasil”. Neste aspecto, há que concordar com a presidente, mas vale lembrar que quem fez a Petrobras passar vergonha foram os diretores e gerentes que lá chegaram por indicação política e foram mantidos nos governos petistas. Como se vê, Lula e Dilma não estão conseguindo interpretar o escândalo da Petrobras com o necessário distanciamento. O nariz está colado no livro.

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