Por monica.lima

Nos Estados Unidos, faz parte da tradição política avaliar os 100 primeiros dias de um governo. Garantem os analistas que é um prazo suficiente para se identificar os rumos da nova administração. Se o mandatário não mostrar eficiência nos movimentos iniciais não se deve esperar bons resultados mais à frente. Por esse prisma, seria arriscado fazer qualquer previsão sobre o segundo mandato de Dilma Rousseff. Poucas vezes se viu um princípio de governo tão atribulado. Nada parece dar certo. E Dilma enfrenta crises em todas as frentes. Em menos de três meses, ela passa por desgaste que não sofreu nos quatro anos do primeiro mandato. O novo ministério não está resistindo às pressões. Caíram os ministros da Comunicação Social e da Educação e o próximo da fila é o do Turismo. Diante da tanta instabilidade, a pergunta fica no ar: o que esperar dos demais 1.371 dias do governo Dilma Rousseff?

Dizem que o Brasil é um país bonito por natureza e abençoado por Deus (fé não nos falta, como mostraram os cristãos, ontem, no Domingo de Ramos). Então, vamos primeiro à hipótese otimista. A presidente Dilma vai reencontrar seu rumo. Voltará a exibir a eficiência dos tempos em que era ministra da Casa Civil de Lula. Em janeiro de 2010, foi escolhida para a sucessão por seus méritos, pela imagem de executiva inflexível e exigente. Sob sua batuta, nasceu o Plano de Aceleração do Crescimento, um ambicioso projeto desenvolvimentista que transformou várias cidades em canteiros de obras. De hidrelétricas a ferrovias, tudo dependia do olho clínico da superministra. E foi assim que “a mãe do PAC” fez história como a primeira mulher a chegar à Presidência. No exercício do primeiro mandato, Dilma mostrou as mesmas características. Deu ênfase aos programas sociais, lutou para manter o nível de emprego e renda, e não abriu mão do direito à reeleição.

Portanto, se a presidente retomar a energia da época de ministra, será capaz de restaurar a base aliada no Congresso, a começar pela fidelidade do PT. Se tudo correr bem, Dilma terá a necessária sustentação política para o ajuste fiscal defendido pela equipe econômica. Mas os tempos são de muita tensão e alta volatilidade. Logo, há que contar também com a hipótese pessimista. Alvo do fisiologismo do PMDB de Renan Calheiros e Eduardo Cunha e enfraquecida pelas divisões internas do PT, a presidente poderá se tornar refém das circunstâncias, sem condições de encaminhar as principais propostas de seu governo. À falta de respaldo no Legislativo, fará a gestão possível, muito longe de cumprir as promessas de campanha. Para agravar o quadro, a economia vai mal. Depois do crescimento medíocre de 0,1% em 2014, tudo aponta para recessão em torno de 1% para este ano.

Em artigo recente, o filósofo Renato Janine Ribeiro, que vai assumir a Educação, apostou suas fichas na volta por cima: “Em que pese seus erros, sua má comunicação, possivelmente um estresse pessoal, (Dilma) continua representando forças políticas significativas”. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é mais reticente. Em palestra em inglês para ex-alunos da Universidade de Chicago, Levy afirmou que “há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, mas às vezes não da maneira mais fácil, não da maneira mais efetiva”. Resta torcer para que a presidente Dilma seja mais efetiva nos próximos 1.371 dias. 

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