Por O Dia

Com longa tradição de disputas polarizadas entre os socialistas e partidos conservadores, os eleitores espanhóis e franceses começam a se encantar com alternativas que fogem ao velho figurino que vem dos anos 60. Muito por influência dos eleitores mais jovens, desencantados com os rumos da política e da economia, fortalecem-se opções à esquerda e à direita.

Na Espanha, a grande novidade é o Podemos, que nasceu das manifestações de rua contra a recessão, o desemprego e a corrupção (movimento que de certa forma eclodiu por aqui em junho de 2013). Na mesma esteira, também surgiu outra legenda: o Ciudadanos. Na França, a decepção com o governo François Hollande tornou-se fermento para o Front Nationale, de extrema direita, que ganhou uma dimensão jamais vista.

O recado das urnas não poderia ter sido mais claro. Nas eleições regionais francesas, a União Movimento Popular (UMP), do ex-presidente Nicolas Sarcozy, conquistou 29% dos votos, o Front Nationale chegou a 25% e o Partido Socialista, do presidente Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, não passou de 21,5%. Em artigo no “Estadão”, o escritor Gilles Lapouge afirma que os dirigentes do PS tentam disfarçar o óbvio: “Marine Le Pen e seus ultras realizaram uma façanha.

O FN, que há 40 anos era uma formação marginal, veste, pela primeira vez, os trajes rutilantes de um grande partido nacional”. Na Espanha, a mudança não foi tão radical. Nas eleições da Andaluzia, o PSOE liderou com 35,4% dos votos, o Partido Popular, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, ficou com 26,8% e o esquerdista Podemos alcançou 14,8%. Esperava-se mais do Ciudadanos, de centro-esquerda, que levou apenas 9,3%.

Os especialistas concluíram que o bipartidarismo nos dois países europeus está com os dias contados. E, diante dos ventos que sopram do outro lado do Atlântico, é natural que se pergunte se o fenômeno político pode se repetir em nossas fronteiras. Até que ponto a clivagem entre PT e PSDB também deixou de representar a vontade dos eleitores, principalmente dos jovens? Os dois partidos, que se enfrentaram nas últimas seis eleições para a Presidência da República, parecem ter perdido influência e prestígio. Pesquisa recente do Datafolha mostrou que é inexpressiva a identificação dos entrevistados com partidos políticos.

No poder há doze anos, o PT mantém-se à frente, mas com apenas 9%, quando já ostentou mais de 20% da preferência. Entrevistado pelo Brasil Econômico, Frei Betto deu uma explicação. O PT envelheceu, acomodou-se e se descolou das bases populares. Quanto ao PSDB, por mais que se esforce, não consegue se desvencilhar da imagem elitista. Não adianta insistir: para os jovens, os tucanos são conservadores.

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Que as legendas tradicionais, no Brasil, ponham as barbas de molho. Em meio à incerteza reinante, abre-se o espaço para o surgimento de novas correntes políticas. É certo que, à direita, são remotas as chances de prosperarem grupos radicais e nacionalistas, no estilo do Front Nationale. Mas, à esquerda, o exemplo dos indignados espanhóis pode servir de inspiração. Com o Psol e a Rede marcando passo, não causará espanto o nascimento de uma nova legenda. Com a marca da mudança.


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