Por O Dia

O que parece ser a volta por cima de Dilma Rousseff na área política e o voto de confiança da agência S&P na capacidade do governo de fazer os ajustes necessários na economia neutralizaram ontem as pressões de alta sobre o dólar decorrentes de interpretações dadas por executivos a declarações do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. A interpretação, de que o BC iria acabar com a “ração diária” de US$ 100 milhões em swaps cambiais, estava correta. Foi confirmada em nota oficial emitida às 20h07. Sob a influência desses fatores antagônicos, o dólar não poderia ter tido outro comportamento a não ser a troca constante de viés. Chegou a subir 0,89% e a cair 1,68%, mas encerrou o dia em baixa de 0,57%, cotado a R$ 3,1275. Foi a terceira sessão consecutiva em queda, acumulando no período perda de 5,13%.

Na área política, os sinais são de que a presidente está conseguindo dar uma guinada. Sem promover formalmente o remanejamento dos ministros da Casa Civil (Aloizio Mercadante) e Relações Institucionais (Pepe Vargas), Dilma retirou-os da função de coordenadores políticos, atendendo desta forma uma reivindicação do magoado e vingativo PMDB. A articulação passou a ser exercida pelo vice Michel Temer e, no que concerne à esfera econômica, diretamente pelos ministros da Fazenda (Joaquim Levy) e do Planejamento (Nelson Barbosa). Até o meio da tarde de ontem, o caminho para aprovação de projetos e MPs parecia menos acidentado. Mas bastou piscar nas telas a informação de que o presidente do Senado, Renan Calheiros, considerava improvável a votação das MPs do ajuste do jeito que estão para o dólar diminuir a intensidade da queda.

Outro fator positivo a minorar a inquietação do câmbio foram as manifestações da S&P. Os analistas não acreditavam que a classificadora pudesse agir com rigor excessivo e já rebaixar o país para grau especulativo. Mas uma mudança de “outlook” da nota de estável para negativo não seria surpresa. Seria uma forma da instituição pressionar Executivo e Legislativo para um empenho maior no sentido de consertar as avarias produzidas nos dois últimos anos. A opção, no entanto, foi externar a confiança de que Dilma, Levy e Barbosa não vão se desviar do curso já traçado não obstante as dificuldades políticas. Mas não se trata de um cheque em branco. A S&P irá acompanhar mensalmente a execução da política fiscal e não descarta um rebaixe se detectar frouxidão na perseguição das metas. Mas inegavelmente o cenário tornou-se desde segunda-feira mais leve e menos conturbado.

Entre os fatores capazes de puxar o dólar para cima o mais incisivo foi a leitura de operadores e investidores de que Tombini havia sinalizado no Senado o fim do programa de intervenção cambial no aspecto relativo à oferta de novos swaps cambiais. Criado em agosto de 2013 para enfrentar a correria externa derivada da perspectiva de início iminente do “tapering” do Federal Reserve, o programa está em sua quarta fase. Na primeira, de agosto a dezembro de 2013, o BC vendeu US$ 2 bilhões de swaps cambiais por semana. Na segunda (janeiro a junho de 2014) e na terceira (julho a dezembro), a oferta foi reduzida a US$ 1 bilhão por semana, ou US$ 200 milhões por dia. Na quarta, de janeiro até 31 de março de 2015, a colocação diminuiu para US$ 100 milhões. Esta etapa termina, portanto, na terça-feira. O mercado leu ontem nas declarações de Tombini que, a partir de quarta-feira, o BC não fará mais leilões de venda de novos títulos. Ou seja, a ração diária terminará.

Na CAE, Tombini não foi explícito a respeito. Mas como não teceu considerações sobre a ração diária — ao contrário da menção que fez no depoimento imediatamente anterior à CAE, em dezembro, de que a oferta se manteria entre US$ 50 milhões e US$ 200 milhões por dia — atendo-se a comentar apenas a questão do estoque já existente de papéis, o mercado entendeu que não haverá mais oferta primária. Como a leitura estava absolutamente correta, o BC resolveu não fazer mais suspense e confirmou o fim da ração.

O BC irá limitar-se a rolar os swaps que forem vencendo no futuro. E, quanto a isso, o presidente da autoridade manteve-se muito tranquilo. Voltou a frisar que o estoque atual, equivalente a cerca de US$ 114,5 bilhões, atende significativamente às necessidades de hedge de empresas e instituições. Acrescentou que o BC tem condições de renovar integralmente o estoque no curto e médio prazos. Está confortável pelo fato de que o estoque promove um hedge de um terço das reservas internacionais. E não vai fugir de sua responsabilidade de assegurar proteção neste momento de normalização da política monetária dos EUA. A proteção permite que as empresas "consigam navegar com certa tranquilidade num ambiente em que o dólar vai de R$ 2,85 para R$ 3,20 em curto espaço de tempo sem quebrar".

O discurso está, na teoria, corretíssimo. Mas, na prática, significa que a partir do mês que vem, como abril tem 20 dias úteis, o mercado ficará sem hedge novo no montante de US$ 2 bilhões. Pela nota oficial, não há a possibilidade de o BC rolar menos do que os US$ 10,115 bilhões que irão vencer no dia 4 de maio. Mas esses R$ 2 bilhões podem fazer falta. A sua ausência pode inibir o ingresso de capitais estrangeiros. Em março, apesar do desconcertante sobe-e-desce da moeda americana, a conta financeira mantém-se superavitária. No acumulado do mês até o dia 20 a entrada líquida de capitais externos somou US$ 1,038 bilhão. Até o dia 13 o saldo era positivo em US$ 1,476 bilhão, ou seja, na semana passada houve uma saída líquida de US$ 438 milhões.

Convém prestar muita atenção à última frase do comunicado. Depois de garantir que fará a rolagem integral dos lotes mensais a vencer, desde que haja demanda e interesse por parte dos seus detentores, afirma: “Sempre que julgar necessário, o Banco Central do Brasil poderá realizar operações adicionais por meio dos instrumentos cambiais ao seu alcance”. O que significa a advertência? Se a volatilidade for excessiva, se o dólar estiver subindo além do autorizado pelos fundamentos, se os especuladores passarem a atirar para todos os lados, ele retornará com os leilões de swaps novos.

No mercado futuro de juros da BM&F, as quedas foram discretas. A taxa para a virada do ano recuou de 13,60% para 13,56%. O contrato para janeiro de 2021 cedeu de 13% para 12,98%. Se o BC de fato estiver propenso a acabar com a ração cambial diária, o dólar pode se considerar escorado em argumento plausível para justificar puxadas, exigindo providências monetárias. Antes de ler o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) que será publicado amanhã, o DI futuro tende a atenuar a influência do câmbio sobre os contratos.

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