Por O Dia

Rio - Sem muito alarde, sem discussões acaloradas, naturalmente, o beijo gay foi mostrado na estreia de ‘Babilônia’, a nova novela das 21h da Globo, de Gilberto Braga, João Ximenes Braga e Ricardo Linhares. As protagonistas da cena não podiam ser outras: as grandes damas da dramaturgia brasileira Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, ambas de 85 anos. Duas divas maravilhosas diante de seu respeitável público. Elas nasceram antes da televisão. Elas estavam lá no começo dela. E hoje têm que lidar com tanto alvoroço no mundo da internet, em que segundos depois a imagem de seu beijo caloroso já estava se reproduzindo que nem coelho no Twitter. E a repercussão veio em seguida, na mesma escala, uma repetição infinita, como dízimas periódicas.

Na mesma hora, corremos na redação para fechar uma boa matéria sobre o assunto, com uma repercussão superpositiva, que era a que estava subindo tela a tela nas redes sociais. A hashtag ‘Babilônia’ bombou, foi parar entre os assuntos mais comentados. O deputado federal Jean Wyllys se manifestou, comemorando o tapa na cara da homofobia. Assim como várias personalidades, parabenizando os autores e as atrizes pela coragem. Coragem, embora devesse ser normal, e não artigo de luxo, a pessoa poder escolher quem quer beijar. Não deveria ser motivo de ofensa a exposição de um casal que se ama, indiferente de gênero. Ninguém está fazendo sexo explícito em público, como se viu em tantos vídeos ‘flagrantes’ nas redes sociais do Carnaval. Mas isso não chocou ninguém, é só luxúria. Fomos para casa comentando o avanço, que bacana, duas atrizes desse porte sendo o que melhor são, atrizes. Fernanda Montenegro não se fez de rogada, não deu apenas um selinho insípido em Nathalia. Sabe que todo mundo ama quem quer, e sabe isso antes de praticamente todos nós.

A minha maior surpresa veio ontem, quando começaram a repercutir os comentários negativos, de crítica à cena. As redes sociais, que tanto nos mostram que o mundo é ágil e mudou, ao mesmo tempo nos mostram que ele não é moderno, é castrador, cada vez mais preso a hipocrisias e julgamentos. Venho batendo há um tempo na mesma tecla, a do respeito. Respeitar para ser respeitado. Mas vendas mentais cegam as pessoas. Cada um tem direito de pensar o que quiser, mas julgar o direito de amar de cada um, este individual, inalienável, é demais. É retrocesso. Chegaram a dizer que as atrizes estavam em fim de carreira. É muita cegueira. Só não envelhece quem morre. Ame mais e julgue menos é um bom lema.

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