Por O Dia

O dólar não subscreveu o armistício firmado ontem no pregão da Bovespa e no mercado futuro de juros da BM&F. Retomou o movimento de alta, interrompido na véspera após violento rali de seis sessões, fechando com valorização de 0,77%, cotado a R$ 3,1278. O câmbio parecia não saber para onde ir. As oscilações de preço foram intensas, mas encetou uma rota de alta na hora final por causa do clima beligerante e de consequências imprevisíveis que cerca os protestos anti-Dilma marcados para domingo. O empenho que o governo vem demonstrando na reconquista da simpatia e do apoio da base aliada no Congresso atuou para criar uma atmosfera mais amena nos mercados de ações e juros futuros.

Os sinais são de que saem de cena dois protagonistas rejeitados pelo PMDB — os ministros da Casa Civil e de Relações Institucionais, Aloizio Mercadante e Pepe Vargas — e entram interlocutores mais afinados com a nova disposição negociadora da presidente. Mercadante e Vargas manteriam os seus cargos, porque Dilma jamais dá o braço a torcer, mas se afastam dos corredores das duas Casas do Legislativo. O governo parece convencido de que só poderá assinar Medidas Provisórias depois de os seus termos terem sido negociados e aprovados pelo PMDB. Não se trata de submissão, mas de se chegar acordos que agilizem a aprovação das medidas fiscais.

A Bolsa conseguiu espaço para estancar um ciclo de cinco quedas consecutivas, e os juros futuros prolongaram a trégua instaurada na terça-feira. A taxa para a virada do ano cedeu de 13,73% para 13,69% e o contrato para janeiro de 2017 recuou de 13,65% para 13,62%, mesmo assim o mercado insiste junto ao Banco Central no pleito de uma aceleração da velocidade de alta da Selic para 0,75 ponto, com a taxa indo a 13,50% já no próximo Copom, marcado para 29 de abril. O Comitê deve rechaçar esta hipótese na ata da reunião realizada na semana passada e que será publicada hoje.

Os mercados não acreditam que a nova postura do Executivo represente derrota ao governo. A capacidade de negociação do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, já foi comprovada. Os analistas se surpreenderam com a rapidez com a qual conseguiu entabular entendimento satisfatório com o presidente do Senado, Renan Calheiros, na questão da correção das tabelas do IR. Como Levy e sua equipe são um manancial de medidas fiscais, conseguirão encontrar opções que sejam do agrado dos políticos. Calheiros já avisou que a aliança não será um cheque em branco generalizado. Acordos precisarão ser firmados caso a caso. Mesmo assim, o PMDB deixa de ser oposição ao ajuste fiscal e passa à condição de co-autor. Esse arranjo não desagrada aos mercados, desde que viabilize a entrega, conforme o prometido, do superávit primário equivalente a 1,2% do PIB.

A fome devoradora de dólares parece, por ora, parcialmente saciada. A vertiginosa arrancada da moeda americana ocorreu na semana passada a despeito de um robusto fluxo de ingresso de capitais no país. De acordo com dados divulgados ontem pelo BC, a balança cambial da primeira semana do mês foi positiva em US$ 3,019 bilhões. Pela conta financeira entrou liquidamente US$ 1,972 bilhão e, pela comercial, US$ 1,048 bilhão. Todo esse saldo foi engolido por instituições, empresas e investidores interessados em formar hedge, colchão de liquidez anticrise e, também, especular. Os agentes compravam todo dólar novo que surgia na praça e pediam mais.

Enquanto isso, os fundos estrangeiros — os maiores “comprados” nos pregões de derivativos cambiais da BM&F — alteravam suas posições em função do aumento das turbulências. Do último dia de fevereiro até terça-feira passada, aumentaram suas posições em DDI (cupom cambial) de US$ 19,38 bilhões para US$ 24,93 bilhões, enquanto reduziam suas apostas em dólar futuro, de US$ 17,48 bilhões para US$ 11,27 bilhões. A preferência foi incrementar as operações que rendem uma taxa de juros em dólar e fugir de um segmento onde o BC, se quiser, pode exercer influência decisiva. Por enquanto, não está querendo. As suas operações com swaps cambiais visam estabilizar o estoque de papéis no atual patamar de US$ 113 bilhões. Não se mostra disposto a colocar títulos em termos líquidos. Por isso é que a diminuição da quantidade rolada de papéis antigos neutraliza o ingresso procedente da ração diária.

Não tem nenhuma lógica essa suposta inquietação dos analistas internacionais com a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) vir, em sua reunião de política monetária marcada para a semana que vem, a sinalizar o início da alta do juro básico em meados do ano. Se fizer a elevação da “fed funds rate” estará dando um tiro no próprio pé. O mundo inteiro está fazendo seus ajustes em cima do dólar. O euro, graças ao caminhão de 60 bilhões de euros despejados pelo Banco Central Europeu (BCE) este mês, não para de cair. O dólar está se fortalecendo globalmente e isso é ótimo para o mundo, que passa a exportar mais, e péssimo para os EUA, que importa mais. Os produtos fabricados nos EUA se encarecem e encalham, precisam ser desovados num mercado doméstico que, apesar de gigantesco, já está saturado de artigos importados. Com isso, a inflação tende a afundar ainda mais. Uma alta do juro só agrava o problema. Já está na hora de o Fed pensar em desenvolver operações cambiais diretas para evitar uma sobrevalorização da moeda americana. Indiretamente, a alternativa seria reduzir ainda mais o juro básico, e não aumentar como vem supondo o mercado. Os analistas comentam que o mundo está agitado porque há uma discrepância entre as políticas monetárias do Fed e do BCE, como se o primeiro estivesse certo e o segundo errado. Pode ser o contrário.

Foi com perplexidade que os economistas acompanharam a divulgação ontem de importantes dados chineses. Vieram piores do que a expectativa já não muito otimista: a produção industrial cresceu 6,8% no primeiro bimestre do ano quando o mercado previa alta de 7,7%; as vendas varejistas subiram 10,7%, abaixo dos 11,6% esperados e da expansão registrada em dezembro, de 11,9%; e os investimentos em ativos fixos subiram 13,9%, ante 15% tanto das expectativas quanto do verificado em dezembro. Ou seja, a desaceleração da segunda maior economia do planeta é forte. O governo reduziu sua previsão de crescimento do PIB para este ano de 7,5% para 7%, mas se conseguir 6,5% já será um feito. Novos estímulos monetários e novas quedas dos juros virão por aí. Os três maiores bancos centrais do mundo são, pela ordem, Fed, BCE e PBOC. Os dois últimos fazem afrouxamentos monetários, enquanto o primeiro sofre cruel pressão dos mercados para promover um aperto. Talvez lá pelo fim do ano haja condições para satisfazê-los mediante um alta simbólica de 0,10 ponto. Agora, não.

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