Por bferreira

Rio - Sempre fui corajosa. Não para voltar a pé à noite, nem para entrar no mar revolto. Corajosa com a vida. Telefonei para a agenda toda da casa para avisar que meu pai havia morrido, mesmo ainda sendo uma adolescente. Declarei amor, comecei e terminei namoros. Tenho medo de ser desmascarada em alguma situação e, por isso, não consigo mentir. Decidi me separar com uma vida calma e um amor, pois não estava feliz. Mudei de emprego, fui questionada, e segui em frente. De aventura, saltei de paraquedas, viajei sozinha com 11 anos (e a família de uma amiga me esperando ao saltar do avião) e, depois de velha, para alguns lugares do Brasil e do mundo. Os arroubos de coragem sempre fizeram com que eu me sentisse viva, embora eu sempre tenha operado com uma margem de segurança: fazendo o que meu coração mandava.

Não falo pela mera expressão usada à exaustão a ponto de virar clichê. E, sim, porque é simplesmente isso: o coração falou, eu ouvi. Ele é meio o senhor de mim. Mas, como qualquer mortal, muitas vezes tenho o defeito de não escutar. As metas e resoluções costumam ser atingidas numa espécie de surdez. E também um pouco de cegueira. Se, às vezes, essa capacidade de enxergar lá na frente ajuda bastante no desenvolvimento e alcance de planos, noutras nos deixa um pouco travados. Como se fôssemos imobilizados pela vida e já tivéssemos sido dados como mortos. Metas que temos que cumprir por educação, consciência, ética. E não é defeito cumpri-las, muito pelo contrário, é mérito. Mas nunca é tarde para destravar e dar ouvidos ao coração. No fim de tudo tem o quê? Com sorte, você estará vivo, mas não terá perdido seu tempo com coisas ‘mundanas’. E isso pode ser um problema. Nos detalhes é que estão as pequenas joias. Como cantou Tom Jobim, “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor”.

Vendo os primeiros passos do meu filho, percebi o quanto é importante aprender a andar. E a gente não valoriza isso, porque aconteceu naturalmente como parte do desenvolvimento. Nem lembramos que andamos e o quanto é importante. É o que leva o ser humano a querer explorar tudo, ver até onde pode ir, pensar por instinto o que pode fazer para aproveitar esse ganho tão grande. Correr? Escalar? Ficar parado jamais. Uma criança quer sair por aí, sempre e mais buscando a vida. A vida não passa. É a criança que passa por ela. E passeia. Passear e ouvir o coração — ou o instinto, como prefira chamar — são importantes resgates da infância.

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