Por bruno.dutra

Se ainda não ajudou a equilibrar as contas nacionais, o ajuste fiscal comandado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, começa a mostrar seu lado mais perverso. Ontem, foram divulgados dados que comprovam a forte desaceleração da economia. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, a renda dos trabalhadores caiu em março pelo segundo mês seguido, tanto em termos nominais quanto descontada a inflação. A queda real em relação a fevereiro foi de 2,8%, o pior resultado em mais de 12 anos. Comparado a março do ano passado, o recuo foi ainda maior, de 3%, o que não acontecia desde de fevereiro de 2004.

O mesmo levantamento apontou alta no desemprego, a terceira consecutiva. A taxa subiu para 6,2%, voltando ao nível de maio de 2011. Para a gerente do IBGE, Maria Lucia Vieira, a explicação para o índice de desemprego é simples: “Nem todos os que estão perdendo o emprego estão conseguindo se recolocar. Existe um efeito de dispensa de temporários e da conjuntura econômica”.

Em meio à nova rodada de más notícias sobre a renda e o mercado de trabalho, a presidente Dilma Rousseff desistiu de fazer seu tradicional pronunciamento em cadeia nacional no 1º de Maio (nunca deixou de fazê-lo desde que assumiu o posto, em 2011). Na opinião do presidente do Senado, Renan Calheiros, o que também pesa contra a fala de Dilma no momento atual é a tramitação do projeto que amplia a terceirização da prestação de serviços.

Logo após reunião com o ministro Levy, Renan voltou a atacar o texto que foi aprovado na Câmara: “A terceirização da atividade-fim precisa ter um limite. Não pode liberar geral. Isso precariza as relações de trabalho e significa um novo modelo de desenvolvimento”. Ele fez a seguinte advertência: “O Brasil não pode pagar esse preço e a presidente não pode fazer isso. Se a presidente continuar fazendo isso, vai continuar não tendo condições de falar no dia 1º de maio”.

No Palácio do Planalto, a explicação para o forfait da presidente é bem diferente e nada tem a ver com o mau desempenho da economia ou com as medidas desfavoráveis aos trabalhadores. Explica o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, que a presidente abriu mão da rede nacional de rádio e TV por ter preferido usar as facilidades da internet. “A presidente vai dialogar com trabalhadores e trabalhadoras pelas redes sociais. Vamos valorizar outros modais. Foi uma decisão coletiva e unânime da coordenação (política) de que ela deveria dialogar pelas redes sociais”. Edinho negou também que a presidente esteja temendo a repetição do panelaço que marcou o seu pronunciamento em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, 8 de março. “Não, não é isso”, rebateu.

Garante o ministro que Dilma não se deixou pressionar pelo risco de novos protestos contra o governo. “Ela valoriza as rádios, a comunicação impressa, a televisão. Mas resolveu, desta vez, valorizar as redes sociais. A presidente não teme nenhuma forma de manifestação oriunda da democracia”, diz Edinho. Seria mesmo de estranhar que Dilma Rousseff, uma mulher que deu ao longo da vida várias demonstrações de coragem, desistisse de falar à Nação por temer reações negativas. A presidente nunca foi de se intimidar. Cá entre nós, a versão mais plausível para sua decisão é de ordem prática e objetiva: sem um cenário positivo à vista, o que dizer aos trabalhadores no 1º de Maio?

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