Por diana.dantas

Na disputa para a prefeitura de São Paulo em 1985, o ex-presidente Jânio Quadros fez uma campanha na TV diferente de tudo, bem ao seu estilo histriônico. Aparecia sempre em companhia de sua mulher, com quem dialogava sobre os mais variados assuntos da vida da cidade. Na verdade, tratava-se de um monólogo aprovado por dona Eloá com sorrisos ou gestos. Uma das gravações tornou-se antológica. Ao falar sobre o aumento dos índices de violência, Jânio arregalou os olhos, contorceu o rosto e afirmou: “É impressionante o que está acontecendo, querida Eloá. Não há mais limites para a ação dos marginais. Em São Paulo, roubam-se até dentaduras dos mortos nos cemitérios. É verdade. Não estou exagerando. Até dentaduras!”. O ex-presidente, que foi eleito prefeito, morreu em 1992, mas o que diria ele se soubesse que a Controladoria Geral da União identificou 47 beneficiários mortos, entre os bolsistas do Programa Universidade para Todos (ProUni)? Como reagiria dona Eloá?

Além dos bolsistas defuntos, a CGU, em suas investigações, descobriu 83 casos de universitários com renda superior ao limite exigido para se habilitar ao benefício. Também foram identificados benefícios concedidos a estrangeiros, o que contraria as normas do ProUni. Em suas conclusões sobre as irregularidades, a CGU afirma que “houve problemas na alimentação dos dados do SisProUni pelas instituições de ensino, bolsistas com desempenho acadêmico inferior ao estipulado, inconsistência no que a instituição informava sobre bolsas do ProUni e as vagas efetivamente oferecidas no vestibular, entre outros”. E pede providências ao Ministério da Educação. Nestes dias de corte de R$ 9 bilhões no orçamento da Educação, é lamentável saber que verbas do ProUni são desviadas com tanta facilidade.

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Trata-se, porém, de café pequeno diante da coleção de escândalos que envergonha o país. Os desvios se multiplicam e não há mais distinção entre os partidos políticos envolvidos. Tucanos e petistas trocam acusações, mas não conseguem escapar da vala comum. Para quem vive do trabalho honesto, é espantosa a facilidade com que corruptos se comprometem a devolver bilhões de reais aos cofres da União para se habilitar à delação premiada. Na semana passada, um empreiteiro pego pela Operação Lava Jato dispôs-se a devolver R$ 55 bilhões. Assumiu essa cifra como quem fala de pagar uma conta de restaurante. Como nos cemitérios de São Paulo, não houve limites no propinoduto da Petrobras.

É bom saber, porém, que o Ministério Público Federal tem feito o possível, em sua órbita, para coibir os abusos. Agora mesmo, em parceria com a Associação Ibero-Americana de Ministérios Públicos, o MPF está lançando uma campanha com o objetivo de conscientizar as pessoas sobre o papel dos procuradores. A ideia é atingir os jovens com o uso das hashtags #CORRUPÇÃONÃO e #CORRUPCIÓNNO. A procuradora da República, Anna Carolina Resende, ressalta que é preciso dizer 'não' à corrupção, por menor que seja, em todos os lugares: em família, nas ruas e nas conversas informais. Ela adverte que objetivo maior da campanha é mostrar que a mudança ética em favor da sociedade começa nas atitudes de cada um. “É importante destacar que comportamentos simples como furar fila, falsificar carteirinhas de estudante, ou subornar um agente de trânsito, por exemplo, também são atos de corrupção”. Só há, portanto, uma atitude a tomar: Diga não à corrupção.

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