Por O Dia

Rio - Falar sobre o futsal do Rio de Janeiro é lembrar de jogadores como Manoel Tobias, Valdin, Cazuza, Bartolo, Franklin, Genésio, Lavoisier, Euller, Índio, Falcão e tantos outros que já envergaram os uniformes de equipes históricas da cidade. Mas um jogador em especial representa tão bem a Cidade Maravilhosa que a leva até no nome. Vander Carioca era figurinha carimbada em todos os projetos vencedores montados por aqui no início dos anos 2000. Com passagens por Flamengo, Vasco, Miécimo e Iate/Kaiser, ninguém melhor do que ele para representar o esporte no Rio.

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Vander Carioca%2C um dos craques do supertime dos sonhos do 'O Salão do Rio'Arquivo O Dia

Criado no Social Ramos Clube, onde chegou aos 7 anos levado por um antigo treinador que o descobriu em uma pelada de rua em Pilares, bairro da sua infância, Vander Carioca por pouco não trilhou o caminho dos gramados. Pelo Vasco, entre os jogos no campo e no salão, o craque treinou no infantil na mesma geração de Felipe e Pedrinho, vencedora de títulos importantes pelo time da Colina nos fim dos anos 90 até 2000.

Fora o Vasco, Vander Carioca fez parte de grandes projetos financiados por empresas e pela prefeitura do Rio, como o Iate/Kaiser, bancado por uma cervejaria em parceira com o Iate Clube Jardim Guanabara, e o RJ/Miécimo que foi formado pela gestão do antigo prefeito Luiz Paulo Conde. Na Região Serrana, o craque também esteve no Petrópolis, outro time bancado pela prefeitura.

"Zé Moraes (ex-secretário municipal de esportes) fez uma revolução naquela época. O Iate/Kaiser tinha uma estrutura muito boa e a grana da cervejaria. Na época eu estava há quatro anos longe do Rio e queria voltar. Tinha acabado de ser campeão da Liga Futsal pelo Atlético-MG e eles não queriam me liberar. Mas foi naquele ano que começou a decolar. Foi maravilhoso. Já no Petrópolis era sempre casa cheia, foram dois anos muito legais lá na Serra. O Lenísio veio para o time para reforçar. Depois acabou pelo motivo de sempre: falta de patrocínio", disse Vander.

Um outro parceiro e amigo de Vander também possui uma vaga na memória do futsal carioca. A conquista do Campeonato Metropolitano de 2001 foi uma das decisões mais antológicas da história do salão. O duelo era entre Vasco e Botafogo/Mackenzie. No segundo jogo da final, o tempo normal terminou 7 a 5 para o Cruzmaltino, com cinco gols de Cazuza. Na prorrogação, dois tempos de cinco minutos no 0 a 0. Como não havia decisão por pênaltis, a partida foi decidida no segundo tempo do “gol de ouro”, que dava a vitória para o primeiro time que mexesse no placar. E quem fez o gol do título? Cazuza.

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Cazuza%2C de azul%2C em ação pelo Búzios no F7Davi Pereira/JornalF7.com

Depois de ter saído do Vasco, em 2000, por conta de uma briga com um dos diretores, Cazuza retornou ao clube no ano seguinte destinado a brilhar no Metropolitano. Na época, o Cruzmaltino havia acabado de perder seu patrocinador de esportes olímpicos. Craques como Manoel Tobias e Schumacher deixaram o time. Mesmo com "vacas magras" e sete meses sem receber salários, o ambiente era bom entre os jogadores.

"Eu me senti um pouco diferente naquele dia (final do Metropolitano). Foi um ano complicado. Mas, graças a Deus, nós conseguimos alguns títulos. Naquele gol, o Alexandre (goleiro) chutou e eu estava no lugar certo e consegui colocar para dentro", revelou Cazuza.

Cria das peladas da Cruzada São Sebastião, no Leblon, Cazuza começou na AABB da Lagoa e teve passagens pelo Botafogo, Flamengo e pelo futsal da Espanha. Jogando Futebol 7 há três anos, o ala-pivô, atualmente no Búzios, admitiu que está afastado das notícias do salão e não cogita retornar às quadras.

Antes de Cazuza, o Vasco era comandado por um gênio chamado Manoel Tobias. Peça fundamental no timaço montado em 2000, campeão de diversos torneios (Carioca, Brasileiro, Taça Brasil, Estadual, Metropolitano, Municipal, Copa Rio-SP-Minas), o camisa 5 conta que não imaginava que os seus feitos em quadra ficariam eternizados na galeria de glórias e feitos marcantes do time da Colina.

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"Não tinha ideia daquilo que estávamos fazendo naquela época e hoje sou muito feliz por ter participado disso. Foi uma honra ter jogado pelo Vasco. Não fico deprimido ou com saudosismo por sentir falta de vivenciar aquilo. Guardo ótimas lembranças e satisfação por tudo", admite Manoel Tobias.

Falcão é um capitulo à parte na história do futsal no Rio. Mesmo jogando na cidade por pouco tempo, o mago dos dribles fez parte de equipes importantes. Por aqui, RJ/Miécimo e Iate/Kaiser puderam acompanhar o seu talento. Quem o viu jogar de perto confirma toda genialidade do craque que hoje atua no Brasil Kirin/Sorocaba, atual campeão da Liga Nacional de Futsal.

"Joguei seis meses com o Falcão no Iate/Kaiser e depois mais um tempo no Miécimo. O cara é fora de série. Fica mais fácil com ele na quadra. Ele faz coisa que a gente duvida", disse Vander Carioca.

'Falcão é diferenciado'%2C afirma Vander CariocaReprodução Instragram

A vaga de fixo deste time dos sonhos é de Schumacher, eleito melhor jogador do Mundo em 2008, e membro do time do Vasco em 2000. O goleiro é o paredão Lavoisier, que jogou no Tio Sam, de Niterói, e também no Cruzmaltino.

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“Quando eu fui convidado para jogar no Tio Sam, naquela época não tinha nenhum jogador de fora jogando no Rio, era só cariocas. Eu fui o primeiro. Pessoal me perguntava: 'Você vai para o Rio? Ninguém vai para lá. Está louco', mas eu dizia: 'Eu vou. Quero vencer e continuar meu caminho’. Meu objetivo era aparecer e ir para algum time do Sul, onde tinha os times mais fortes. Mas, em 98, surgiu o Vasco. Eu nunca havia jogado em um time de camisa e foi fantástico ver os torcedores gritando mesmo perdendo o jogo. Foi em 98 que nós demos o pontapé para aquele timaço de 2000. Graças a Deus deu tudo certo", disse o goleiro.

Lavoisier defendeu o Tio Sam e o Vasco no Rio de JaneiroReprodução Instragram

"Nós ganhamos tudo. Foi o melhor time que joguei. Fora de quadra é natural que os jogadores criem suas afinidades, mas lá dentro era todo mundo junto. Nosso vestiário era tranquilo. Pena que acabou. O Vasco conseguiu levar as contas bem até setembro. Depois começou atrasar e chegou um momento em que não pagava mais. Mas todo mundo queria ficar", completou Lavoisier.

O ex-goleiro hoje trabalha como supervisor de Carlos Barbosa, uma das integrantes e mais tradicionais equipes da Liga Nacional de futsal. Lavoisier guarda com carinho na lembrança os jogos pelo Vasco no Maracanãzinho.

"Os jogos do Maracanãzinho são inesquecíveis. Semifinal contra Ulbra eu peguei um pênalti e na final do Estadual eu peguei outro, batido pelo Cazuza, do Flamengo. Eu costumo dizer que pênalti no Maracanãzinho é comigo mesmo (risos)", disse o goleiro.

O técnico deste time de craques seria Ricardo Lucena, que comandou Vasco e RJ/Miécimo, vencedor de todos os títulos citados com o time de 2000, além de vice da Liga Nacional em 1999 e Estadual, no mesmo ano. O treinador foi um gênio das quadras cariocas.

Ele faleceu em 2007, aos 51 anos, vítima de complicações provenientes de um câncer na bexiga. Certa vez, ganhando do Flamengo, por 3 a 0, no Maracanãzinho, e faltando apenas três minutos para o fim do jogo, o treinador cruzmaltino cobrou atenção total dos seus jogadores numa pausa de tempo técnico. Ao término da fala com seus comandados, um repórter da emissora "SporTV" questionou a forma enérgica, mesmo com o time vencendo a partida. A resposta dada por Ricardo é um exemplo claro exemplo de como ele amava o que fazia e justifica sua escolha para este ‘supertime dos sonhos’.

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"Eu sou vibrador, não sou agitado. Eu vivo pelo meu trabalho, eu vivo pelo futebol de salão. E é a maior alegria poder ver um salão dessa qualidade, presenteando o público brasileiro com dois times de camisa e um belo espetáculo. Então eu vou estar sempre vibrando, sempre brigando, porque eu brigo pelo meu esporte", disse o treinador. Que você esteja em paz, Ricardo.

Manoel Tobias%2C Ricardo Lucena e Schumacher%2C os 'monstros' do MaracanãzinhoArquivo O Dia

Reportagem de Victor Abreu. Colaborou Edsel Britto.

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