Por victor.abreu

Rio - No dia 8 de julho de 2014, o talento e a superioridade do futebol brasileiro foram colocados em xeque. A Seleção deixava o gramado do Mineirão cabisbaixa e com lágrimas nos olhos. O placar de 7 a 1 para a Alemanha fez os “espíritos” da Copa de 1950 descansarem em paz. Afinal, aquele era o novo maior vexame da história da Amarelinha em Mundiais. Muito se discutiu depois disso. Um novo treinador foi escolhido, novos métodos foram criados. O drible, a velocidade e o faro de gol brasileiro estavam escassos e sem brilho. No futebol moderno, ganha quem ficar mais com a posse de bola, envolvendo o adversário em uma linha de passes até que surja uma chance de marcar, como o 'tiki-taka' espanhol mostrou. O Brasil olha para fora dos seus domínios como se este estilo de jogo não fosse comum por aqui. A crise dos gramados pode estar longe dos estádios. Quem sabe em um quadra de tacos, o de piso corrido, ou até mesmo de concreto liso, não esteja a solução?

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Oscar deixa o campo desolado no Mineirão, depois da goleada sofrida para a Alemanha na Copa do MundoReuters

O futsal é um dos maiores prestadores de talento ao futebol brasileiro. A quinta matéria da série O Salão do Rio traz o depoimento de jogadores de sucesso que fizeram a transição das quadras para o campo. Investir na modalidade pode ser a solução para resgatar o brilho e o talento brasileiro.

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“Quando você pega um menino de 8 ou 10 anos que jogue na defesa, em um treino de 1h30 no futsal, ele pega na bola umas 30 vezes. Ele acaba virando um zagueiro com bom passe, que finaliza bem e que sabe sair jogando. O mesmo menino, na mesma 1h30 no campo, não faz isso. Ele vai chegar em casa e contar para os pais que deu três chutões para frente. Eu cito o zagueiro porque é um exemplo bem direto nessa relação de benefícios entre campo e salão. A baliza está 100 metros de distância dele que joga na defesa no futebol de campo, não dá para fazer muita coisa. O futsal dá ao garoto mais intimidade com a bola, independente da posição que ele jogue”, disse Falcão, craque de futsal que passou pelo futebol em 2005, com a camisa do São Paulo.

Robinho, Rivelino, Ronaldo, Zico, Ronaldinho Gaúcho e Neymar são só alguns craques do futebol de campo lapidados pelo futsal. Há quem diga que o talento brasileiro acabou, mas, dia após dia, homens e meninos treinam nas mais diversas agremiações de futebol de salão do Rio de Janeiro e do Brasil para, no futuro, provar o contrário. A migração para o campo é um processo natural, afinal, o futsal profissional está longe de ser um pilar de conforto e estabilidade.

Talentoso como Zico, goleador como Ronaldo e rápido como Wellington Silva

A prova de que o salão é forte é que ele foi capaz de criar um “Deus”. A tímida quadra do River Football Club já abrigou um gigante dos gramados. Arthur Antunes Coimbra, o Zico, jogava um campeonato de futsal amador pelo clube do bairro da Piedade quando foi descoberto e levado para o Flamengo, em 1967, onde tempos depois ele conquistou os principais títulos da história do Rubro-Negro e se tornou um herói para uma Nação.

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Zico fez parte da sua formação de base no River da PiedadeArquivo

“Foi importante para mim. A formação técnica do futsal acaba acontecendo como um complemento. Se você jogar dois esportes ao mesmo tempo, você pode ter uma apuração técnica e física maior. Apesar da semelhança, o futsal traz algumas coisas peculiares, como mais reflexo e a utilização perfeita do espaço curto. São diferenciais para um jogador. Acho importante que salão e campo caminhem juntos. Hoje em dia, o jogador de futebol precisa, cada vez mais, de um diferencial e o futsal é um deles, por estimular fundamentos bem importantes”, disse Zico.

Ronaldo no Social Ramos ClubeReprodução Internet

Menos de nove quilômetros separam o River, de Zico, de outro gênio dos gramados brasileiros. No fim da década de 80, o Social Ramos Clube teve um Fenômeno. Cria do bairro de Bento Ribeiro, Ronaldo deu seus primeiros chutes no Valqueire Tênis Clube e chegou ao futsal do clube de Ramos em 1989. Por lá, foram dois anos até a migração para o futebol de campo do São Cristóvão. Depois, o céu foi o limite para o pivô ágil e goleador. Cruzeiro, PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid, Milan, Corinthians e o mundo testemunharam e se renderam ao talento do craque criado nas quadras de futsal.

Em 1989, o Valqueire não montou uma equipe sub-13 e, por conta disso, o treinador Fernando Carvalho convidou Ronaldo para o Social Ramos Clube. O Fenômeno ainda passou pelo Grajaú Country Clube. Por lá, outros dois jogadores de nível de seleção brasileira estiveram. Na Rua Professor Valadares, Cesinha e Juan deram os primeiros passos no futsal. Cesinha se tornou Julio Cesar, goleiro titular do Brasil em duas edições de Copa do Mundo e Juan virou um dos melhores zagueiros do futebol moderno. A dupla cresceu e ganhou o mundo. O goleiro é ídolo no Flamengo, primeiro clube no futebol de campo, e teve uma passagem vitoriosa pela Itália. Hoje no Benfica, os reflexos adquiridos nos tempos de futsal são umas das principais características do camisa 1.

Juan teve uma trajetória parecida. O Flamengo também foi o destino do zagueiro nos seus primeiros passos ao deixar o futsal. Depois da Gávea, o jogador passou pelo Bayer Leverkusen, Roma e hoje joga pelo Internacional, de Porto Alegre. Seguro na defesa, o atleta esteve em duas Copas do Mundo (2006 e 2010).

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A "fábrica do salão" continua como uma rentável fonte de craques. Neymar dispensa comentários e Philippe Coutinho, hoje aos 22 anos, atuando pelo Liverpool, da Inglaterra, é mais uma prova disso. O meia, que foi do Vasco, exibe os dribles e a velocidade que se tornaram sua marca registrada desde os tempos de futsal. Quem jogou salão contra o ex-cruzmaltino foi Wellington Silva, hoje no Almería, da Espanha, emprestado pelo Arsenal, da Inglaterra.

Wellington Silva recebe o troféu das mãos de Romárioarquivo pessoal

Wellington Silva começou no Mello Tênis Clube, depois passou pelo Vila Isabel, até chegar ao Fluminense. Ainda deu tempo para defender o Madureira e o Vasco. Em torneios fora da Federação do Rio, o Jacarepaguá Tênis Clube e o Osvaldo Cruz também contaram com o talento do jovem craque.

“No futsal tem muito movimento, o drible rápido, você tem de pensar rapidamente e isso me ajudou muito. Eu comecei no futsal com 6 anos e fui até os 16. Foi muito importante para o meu pensamento ficar ágil e, depois no campo, tendo um pouco mais de tempo, isso me ajudou a ter melhores decisões nas jogadas”, disse Wellington Silva.

Ex-craque da seleção brasileira, Manoel Tobias, três vezes eleito Melhor Jogador do Mundo, também fez história no clube de São Januário nos anos 2000. Para ele, o futebol de campo sempre encontrará no salão jogadores de talento e habilidade.

"Querendo ou não, o futebol (de campo) vai ser dependente da formação do futsal. É histórico e isso vai ser para sempre. Eu fico triste que os clubes (grandes) hoje não têm esse trabalho bem-feito na base e não investem mais no futsal para terem esse retorno. Isso só prejudica o futebol brasileiro, que perde qualidade na formação dos jovens jogadores", disse Manoel Tobias. Outro gênio das quadras, Vander Carioca amplia o debate até os dirigentes.

"As coisas vão mudar quando os profissionais que cuidam do futebol de campo abrirem os olhos para essa questão do futsal. Eles sabem que o retorno é grande e o custo é pouco. É triste ver isso, um esporte que deu tanto para o Brasil ser abandonado. Tendo pessoas inteligentes, nos times grande, é mais fácil de mudar", concluiu Vander Carioca.

Reportagem de Victor Abreu. Colaboraram Edsel Britto e Pedro Logato

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