Por O Dia

Rio - Eles foram driblados e derrotados pelas dificuldades. O número de clubes de futsal desativados na cidade é grande, quase incalculável. Times que viveram dias gloriosos e hoje amargam uma triste realidade. A nostalgia alimenta o sonho de voltar à elite, mas o presente é sombrio. No segundo capítulo da série "O Salão do Rio", dez agremiações relataram os problemas enfrentados por aqueles que estão afastados das quadras. A lista tem campeões estaduais a nacionais.

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Quem passa pela Rua Jardim Botânico não imagina que no nº 650 descansa uma das grandes forças do futebol de salão do Rio de Janeiro. Campeão do Rio-SP de 61 e da Taça Brasil de 68, além de alguns estaduais, o Carioca Esporte Clube está longe de reviver os seus dias de glórias nas quadras. O time está desativado desde os anos 70. A diretoria fez contato com alguns parceiros para reativar o setor, mas, por conta de dívidas, o clube deve transformar sua quadra em uma academia de musculação.

Fachada do Carioca Esporte ClubeDivulgação

“Infelizmente vamos perder nosso pulmão. Fomos um dos principais clubes de salão nos anos 60, mas infelizmente acabou. Hoje em dia é tudo profissional e não temos condições de bancar cinco divisões de categorias como aqui tinha”, lamentou Manoel Henrique Martins, presidente do Carioca Esporte Clube. Ele ainda se lembra do momento em que o salão foi desativado.

“O Carioca começou a cair, não me lembro o ano exatamente, mas foi em um jogo aqui contra o Mackenzie. Nós já estávamos como um time de amadores e eles vieram aqui e deram uma enfiada de uns 5 a 0. Aquilo deixou os associados malucos. ‘O Carioca não pode levar de cinco dentro de casa’, ‘Se é para fazer isso é melhor não jogar’, era o que eles diziam. No ano seguinte saímos do salão”, contou.

O Centro Cívico Leopoldinense sobrevive com dificuldades. O clube mantém uma escolinha de futsal, mas admite que a concorrência com projetos gratuitos em praças próximas à Rua Quito, local da sua sede, é desleal. Os custos gerados pelo clube tornam a prática sem custos inviável. Apesar da quadra reformada - os tacos foram trocados -, o clube não sabe quando vai retornar ao futebol de salão.

"Começamos nossa escolinha no fim do ano passado. Mas ainda é pouco frequentada. O clube não tem expressão nenhuma de esportes atualmente. Não dispomos de estrutura para isso. Há dois anos tivemos futsal em três categorias, mas a falta de estrutura dificulta muita coisa. É um custo muito alto. Sem patrocínio não há como oferecer condições aos atletas. Isso faz com que o time não tenha uma resposta desejada na quadra. Tiramos o time dos campeonatos para tentar reformular", revelou Celso Silva de Lemos, presidente do Centro Cívico Leopoldinense.

Fachada da sede esportiva do Centro Cívico Leopoldinense. Clube ainda possui uma sede social na Rua Macapuri, 67, PenhaVictor Abreu

O escritor Carlos Chinelli mantém viva a memória do futebol de salão na coluna "Turma do Bate-Bola", no jornal "Rio Suburbano". Ele foi jogador do GREIP da Penha, Centro Cívico, Vasco e do Grêmio de Rocha Miranda.

"O Centro Cívico, nos anos 70, era famoso pelos bailes. Dava mulher à beça, então vinham Nelinho (Ex-Cruzeiro e seleção brasileira), Abel Braga, Doval (jogador argentino, ex-Fla e Flu)... eram jogadores profissionais que frequentavam o baile. Então a garotada queria jogar no Centro Cívico para poder ter a carteirinha de atleta e não pagar os shows e ficar no meio desses caras. E nessa brincadeira o Centro Cívico montava timaços só para o pessoal ir ao clube de graça", disse Chinelli, que também se recorda do caldeirão que era o ginásio do Rocha Miranda.

"O Grêmio de Rocha Miranda era conhecido no Rio de Janeiro inteiro por ter uma torcida terrível. Eu joguei lá e sei disso. Eles jogavam cadeira na quadra, gritavam, xingavam e era muita pressão jogar lá. Eles não admitiam perder lá dentro de Rocha Miranda. Teve um jogo contra o Vasco, lá em Rocha Miranha, que a gente precisava ganhar. A 1min40s para terminar a partida, sei o tempo exato porque eu era o capitão e fui até a mesa de arbitragem perguntar o tempo, nisso eu perdi um gol quase em cima da linha. A torcida ficou maluca. 'Desgraçado, vou te matar', eles gritavam. Na bola seguinte aconteceu a mesma jogada, só que eu não desperdicei. Fui de vilão a herói em 1min40s, foi a primeira fez que eu tive medo jogando futsal", recordou.

Wendell Ferreira%2C à direita%2C em um evento na quadra do Grêmio Social Esportivo Rocha MirandaReprodução Facebook

No Grêmio Social Esportivo Rocha Miranda, clube em que Chinelli jogou, há diversos problemas atrapalhando a vida do presidente Wendell Ferreira. Sem time de futsal, o dirigente lamenta a falta de oportunidade. “Praticamente falido” e com um escolinha terceirizada, já não há mais associados pagando mensalidades e o aluguel da quadra está em baixa por conta dos campos de grama artificial nas redondezas.

"Pelo que eu já ouvi dos frequentadores mais antigos, a quadra do Grêmio já foi uma das melhores do Rio. Mas, hoje em dia, está difícil. São impostos altos. Antigos presidentes não pagavam e isso virou uma bola de neve. O clube tem dívidas", disse o presidente Wendell Ferreira.

Usando a renda dos poucos aluguéis da quadra para pagar dívidas, o clube não consegue programar reformas no ginásio e já foi notificado, por duas vezes, pelo Corpo de Bombeiros. A terceira pode decretar o fechamento da sede.

"Aparece, e como aparece, político aqui. Tem uns que até ajudam. Na pintura do ano passado eu tive um que ajudou. Eles fazem uns eventos para terceira idade. Mas esse ano está fraco. Se a Prefeitura quisesse fazer algo aqui dentro seria bom para caramba, mas eu não tenho esse tipo de conhecimento para colocar um projeto social aqui dentro", concluiu o dirigente.

O Grêmio Social Paranhos e o Jequiá Iate Clube vivem situações bem parecidas. Ambos estão fora do cenário do futebol de salão. As quadras não foram desativadas totalmente pelos clubes. Escolinhas foram mantidas. Eventualmente, os locais são alugados para pequenos shows e peladas. No Jequiá também há uma escolinha de Futebol 7, modalidade jogada em grama artificial. Existe uma plano para reformar a quadra do clube da Ilha do Governador que, segundo um dos administradores, está em condições razoáveis. O piso é de taco com amortecedor por baixo das tábuas.

Jequiá%2C junto com o ASCAER e o Iate Clube Jardim Guanabara%2C é um dos clubes mais tradicionais da Ilha do GovernadorReprodução Facebook

O jogador mais famoso que o Casino Bangu Sociedade Cultural Recreativa e Esportiva já teve foi Mozer, ex-zagueiro do Flamengo. O clube é vice-campeão da Taça Brasil e campeão carioca de futebol de salão. Na letra da música ‘1967’, do rapper Marcelo D2, o músico relembra os bailes funk’s que eram realizados no Casino na época em que o frequentava. "Lembra do Casino Bangu? De vez em quando eu ia lá, curtir um funk, ver a mulherada rebolar. Kool and the gang, gap band, outro mestre, James Brown. Era só alegria. Não tinha pau", diz a canção.

A forma correta de escrever o nome do Casino é com apenas um ‘S’. O erro de dobrar esta letra é cometido porque muito acham que se trata de uma alusão às casas de jogos de azar. Mas foi um espanhol chamado João Ferrer, primeiro presidente do clube, que lhe deu este nome. Mesmo com um ginásio cheio de tradições, apenas o tênis de mesa é praticado na sua sede nos dias de hoje.

"O Casino não está tendo futebol de salão. Vamos começar a procurar uns patrocinadores. Temos de reformar a quadra, trocar piso, telhas e pintura. Mas está sem previsão para isso tudo. Nós tínhamos um núcleo da escolinha do Bangu, mas quando acabou o professor levou todo mundo para lá para o Bangu de volta", disse o benemérito José Onofre.

O rapper Marcelo D2 passou parte da sua adolescência no Casino Bangu Reprodução Facebook

O York Esporte Clube, de Bonsucesso, mantém o seu nome, mas virou um salão de festas. Não há sequer um presidente. Outro clube que também está fora das competições é o tradicional Bonsucesso Futebol Clube. Via assessoria de imprensa, o clube informou que a troca da administração fez com que o setor fosse desligado. A agremiação não tem previsão para retornar ao esporte. No Coimbra Esporte Clube, na Penha, o futebol de salão também está desativado.

Evento de kickboxing no ginásio do Coimbra Esporte ClubeReprodução Facebook

O São Cristóvão Imperial mantém uma escolinha de futsal, com 50 crianças, aos sábados e um time amador de futsal na categoria adulto, que disputa campeonatos por conta própria e é formado por associados e convidados. O clube se prepara para pintar a quadra. Segundo o vice-presidente de esportes, André Campos Marins, o Imperial está “andando bem”.

“Os déficits estão sendo pagos. Nossa dívida era basicamente impostos atrasados de gestões passadas. Quando assumimos, fomos correr atrás disso tudo. Temos os pés no chão. Não fazemos nada que não possa ser feito. O clube tem um grande patrimônio para conservar e não passar sufoco”, disse André Campos.

Time amador adulto do São Cristóvão ImperialReprodução Facebook

O clube pensa em retornar aos torneios de futsal nas categorias de base, mas estuda dar este passo com cautela. Caso queria retornar aos desportos, novos custos e taxas serão criados, podendo comprometer o andamento da política financeira da atual gestão.

“Futuramente sim, mas requer custos, logística, carros para levar os atletas, dinheiro para árbitro, pais para acompanhar as crianças, treinador... é difícil. Hoje, na escolinha, eu organizo torneios com outras escolinhas para colocar os meninos para jogar. A nossa ideia principal é formar um cidadão bacana e que a criança se divirta praticando esporte. Nunca vou obrigar ninguém a ganhar, a ideia aqui é o lazer. Se o pai ver que ele tem talento, leva para onde ele quiser. Somos bem ‘light’ nesse sentido de competitividade”, comentou o dirigente. A falta de recursos no Imperial faz com que o clube deixe um apelo aos órgãos públicos.

“Cada um dos clubes de bairro tem de cuidar como estamos cuidando aqui. Nossa gestão é de gente jovem e estamos fazendo um trabalho legal. Claro que os governantes precisam ajudar de alguma forma: na conta d’água, temos um piscina aqui e sabemos que fica caro, liberação de alvará adequado para fazer os eventos sem nenhuma ilegalidade, visitação de órgãos de meio ambiente para deixar tudo O.K., tanto dentro quanto no entorno do clube. Isso já seria bem legal para nós. Prefeitura faz tanta coisa no meio da rua. Por que ela não procura fazer essas atividades dentro dos clubes? Melhor aqui do que na rua. Hoje as crianças não podem nem jogar bola na rua, é perigoso. Com a Prefeitura pagando os professores: de luta, ginástica da 3ª idade, dança… se fosse ela promovendo essas atividades aqui dentro eu veria um movimento no meu clube e ganharia com lanchonete, bar e outras coisas. Esse tipo de parceira que eu sinto falta”, concluiu.

Reportagem de Victor Abreu. Colaboraram Edsel Britto e Renata Amaral.

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