Por monica.lima

Depois que o Copom fez questão de ser repetitivo na quarta-feira, tanto no tamanho da alta da Selic quanto no teor redundante e inconclusivo do seu conciso comunicado, os anseios dos analistas por uma sinalização menos nebulosa quanto aos próximos passos da política monetária passaram a ser depositados na ata desta reunião de abril, a ser publicada na quinta-feira. As esperanças são vãs. As mudanças radicais de pensamento do Banco Central, observadas desde o início de abril, tornaram sem efeito as indicações contidas não só na ata da reunião anterior quanto, mais desorientador ainda, como no Relatório Trimestral de Inflação (RI) publicado no final de março. Em ambos, o sinal, piscando em vermelho ofuscante, era de uma parada do ciclo monetário na semana passada por meio de uma alta final de 0,25 ponto. Não valeu: o vermelho escrito em papel foi substituído por um verde contínuo emitido por meio de falas. Em tradução livre: tanto a ata quanto o RI não servem para indicar os rumos da taxa de juros.

Enquanto peças fundamentais do sistema de metas de inflação, ao lado do Boletim Focus, a ata e o RI são instrumentos utilizados pelo BC para convencer a sociedade (empresários, consumidores, investidores, formadores de opinião e profissionais do mercado) de que o seu cenário macroeconômico está correto. Detentor de informações privilegiadas e de cérebros capazes de acondicioná-las em modelos confiáveis, o BC trabalha as “expectativas” em favor da eficácia de suas políticas. Ele enxerga o futuro com lentes especiais e sabe o que está fazendo. No RI, estava francamente otimista em relação ao seu objetivo de alcançar o centro de 4,5% da meta inflacionária ao fim de 2016. Mas se muda de opinião de uma hora para outra, se hoje rejeita aquilo que escreveu há menos de um mês, como confiar no seu tirocínio? Foi o que fez há três semanas.

A impressão que se tem é que o que está errado não é a comunicação do BC, a incapacidade de externar de forma compreensível aquilo que está vendo e os procedimentos condizentes com essa visão. Frequentemente, culpa o mercado por não entender direito os seus recados. As manifestações verbais seriam necessárias para “corrigir” interpretações equivocadas dadas pelos pregões. Mas, na verdade, a sensação é de que não sabe bem para onde está indo. Este BC parece a face monetária de um governo que age por impulsos ciclotímicos radicais: se é para baixar o juro, não tem problema, basta jogá-lo a 7,25%, e comemorar o piso histórico absoluto e uma taxa real de juros de 2%; se é para puxar o juro, mais fácil ainda, e o juro real explode para 7%; se a política econômica é desenvolvimentista, não há o menor receio em explodir as contas públicas, subsidiar o consumo e comprimir os preços públicos; se ela é austera e conservadora, os ajustes são fulminantes e rápidos, sem preocupação com atividade e emprego. Os quatro primeiros meses do segundo mandato não seguem o princípio maquiavélico segundo o qual o mal deve ser feito de uma vez só e o bem distribuído ao longo do tempo. Na verdade, tanto o bem quanto o mal são feitos o mais rapidamente possível, de forma categórica e absoluta, sem medir as consequências.

Os tesoureiros e gestores que apostam dinheiro grosso no mercado futuro de juros da BM&F não estão muito interessados em ler a ata do Copom. Na quinta-feira passada, a manutenção do ritmo de alta da Selic e do comunicado autorizou a suposição de que o aperto monetário, iniciado em abril de 2013, deverá prosseguir até pelo menos julho. E os juros desembestaram alegremente. A taxa para a virada do ano saltou de 13,48% para 13,67%. E o contrato para janeiro de 2017 pulou de 13,22% para 13,46%. A curva embute alta da Selic de 0,50 ponto em junho e de 0,25 em julho. Ou seja, Selic derradeira de 14%. Derradeira? O DI futuro adora um BC eternamente vigilante, insatisfeito com os resultados já alcançados e pessimista em relação ao futuro. Trata-se de um BC disposto a prolongar a escalada da Selic, indiferente ao desmoronamento que provoca em torno da trilha ascendente. Se o BC não tem confiança no cenário que ele mesmo construiu no último RI, a repetição literal do comunicado é lógica. Não poderia ser diferente: caso mudasse o texto indicando a possibilidade de no próximo Copom, em 3 de junho, estabilizar a Selic em 13,25% o impacto prático seria o de promover uma queda nos juros futuros. Um contrassenso: ao mesmo tempo em que sobe o juro básico de 12,75% para 13,25%, ele derruba o juro futuro. Derrubaria porque, na estrutura a termo do DI, estava implícita até então pelo menos mais

A Selic e os seus rumos formam o DI futuro, e é a curva quem estabelece o piso para o custo do dinheiro. As decisões concomitantes de subir o juro e promover a parada futura são antagônicas, pois não promovem nem a contração do consumo, a alta do custo do crédito e o aumento do desemprego — três dos objetivos de um aperto monetário — apenas aumentam o rendimento imediato do capital financeiro e apreciam a taxa de câmbio. O BC pode até parar de aumentar a taxa em junho, mas só vai contar isso às vésperas do encontro. É por isso também que a ata de quinta-feira não vai servir para muita coisa.

Uma alta de 0,25 ponto. Ao desembutir essa elevação, o DI cairia. Qual a implicação desses movimentos contraditórios? Se subisse a Selic e, simultaneamente, indicasse uma parada, o BC estaria gastando munição inutilmente. Agravaria a dívida pública bruta, exigindo um esforço fiscal maior, e boicotaria os seus efeitos desinflacionários, ao provocar o declínio do DI. Isso ocorre porque não é a Selic a formadora básica do custo do dinheiro da economia.

O cenário básico do BC é (ou era) o seguinte: 1) Não será preciso muito desemprego para provocar a queda da inflação; 2) O repasse da alta do dólar aos preços não será importante; 3) O IPCA de 2016 despencará mês a mês a partir do descarte estatístico dos meses correspondentes de 2015; 4) A política fiscal caminha do campo neutro para o contracionista. Trata-se de um quadro que, se confiável, dispensaria a alta da Selic feita na quarta-feira. A ata vai alterar essa visão? Em qual item? Certamente, os membros do Copom sentaram-se à mesa no fim da tarde de quarta-feira já tendo em mãos os resultados das contas públicas de março. Os dados são trágicos: o setor público consolidado conseguiu obter um superávit primário de R$ 239 milhões (o mercado previa R$ 5 bilhões); no acumulado de 12 meses, o déficit primário subiu de R$ 35,824 bilhões em fevereiro para R$ 39,164 bilhões em março e, em relação ao PIB, cresceu de 0,64% para 0,70%; o déficit nominal pulou de R$ 379,52 bilhões (6,83% do PIB) para R$ 435,75 bilhões (7,81%), sobretudo porque os “gastos com juros” saltaram de R$ 56,34 bilhões para R$ 69,49 bilhões; e a dívida bruta subiu de 60,9% para 62,4% do PIB.

A conclusão do mercado: não vai dar para fazer o superávit primário prometido, aquele 1,2% que é uma espécie de “questão de honra” para o ministro Joaquim Levy. E o dólar disparou na quinta-feira 1,88%, cotado a R$ 3,0131. Após quatro meses, o mercado começa a duvidar dos superpoderes do seu herói. Se o mago das tesouras falhar, será confiada ao BC a missão de evitar o rebaixamento do rating?

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