Por O Dia

Como o Banco Central não leva em conta indicadores de atividade e emprego na hora de decidir os passos da política monetária, a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgado ontem pelo IBGE, mereceu do mercado futuro de juros da BM&F um tratamento meramente formal. Consignou para registro histórico que as vendas varejistas caíram, pelo conceito restrito (que é o mais relevante) 0,4% em abril, enquanto os analistas projetavam crescimento de 0,7%. O descompasso entre a realidade e a expectativa não tira a tranquilidade do mercado e do seu BC.

O raciocínio tranquilizante é um truque de ilusionista: as vendas murcham porque a inflação é alta, sendo assim quando o IPCA se vergar ao látego monetário o varejo irá se recuperar. Abril foi o terceiro mês de queda em sequência. É o mês que inaugura o segundo trimestre, cujo PIB, todos os primeiros dados sugerem em uníssono, irá se contrair mais do que se imaginava. Isso não é da responsabilidade do BC, menos ainda do seu sócio que, no pregão da BM&F, exige colossais prêmios de risco necessários para protegê-lo justamente da falta de confiança na política monetária.

Os juros futuros recuaram (muito pouco) ontem pelos ventos de distensão que os analistas identificaram como procedentes da Grécia. Pelo entendimento dos mercados, o governo grego parece, como a maioria da população, disposto a aceitar um pouco mais de austeridade em troca de um acordo capaz de livrar o país do default explícito e do trauma recessivo derivado do rompimento com a zona do euro. Salvam-se as aparências helênicas e o caixa das instituições que carregam títulos soberanos do país.

Os grandes investidores já estão mais calmos e afastam o risco-contágio — a possibilidade de insolvência de bancos (que teriam de ser resgatados pelo BCE) e de alta dos juros de longo prazo de países menos afortunados da eurolândia. O índice de ações FTSEurofirst 300 fechou ontem em alta de 0,58%. A quebra da Grécia, um evento assumidamente desejado pelos alemães, não provocaria, exceto para os gregos, o apocalipse pintado pelos catastrofistas que ganham com as crises.

Os mercados afrouxaram suas inquietações gregas a partir de discurso do primeiro-ministro Alexis Tsipras. Mas a fala foi carregada de enigmas. Não há certeza de que o Syriza cederá. O premiê considerou encerrado o período de cinco meses de conversações e frisou que agora começam as “negociações reais”. Ao mesmo tempo em que repisou que as condições da troica europeia são inaceitáveis, disse que as indefinições sobre o futuro da economia grega e sobre a sua permanência ou não na comunidade do euro precisam terminar. Pode ter sido um discurso preparatório à ruptura, mas o mercado entendeu justamente o contrário.

Os sinais de relaxamento externo foram denunciados pela queda das taxas dos títulos de 10 anos do Tesouro americano. A T-Note cedeu de 2,36% para 2,31%, afastando-se cada vez mais da zona de desconforto acima de 2,40% sondada no começo do mês. A expectativa reinante ontem era de que o Federal Reserve (Fed) não vai atrapalhar o veraneio ensolarado dos investidores europeus. Os mercados operaram com a certeza de que, hoje à tarde, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), ao final de sua reunião esticada de junho, não vai se comprometer com lances cabais. Pode até ser que, no comunicado, diga claramente que no encontro do mês que vem a probabilidade de elevação da taxa básica de juros é muito pequena.

Mas não fechará questão acerca do encontro de setembro, o que concentra as apostas dos analistas como o decisivo. Os “insiders” do Fed acreditam que o Comitê reforçará as premissas gradualistas já abraçadas pela “chair” Janet Yellen: quando o juro começar a subir, em setembro ou dezembro, a ascensão será vagarosa, uma lentidão destinada a evitar pânicos entre os investidores e decolagens dos juros longos que anulem os esforços de recuperação da economia americana.

A forma como irão se combinar esses dois fatores — as negociações gregas e as sinalizações do Fomc — irá determinar o comportamento dos mercados nos próximos dias. Num extremo, o melhor dos mundos para a manutenção da hiperliquidez global consiste na conjugação de um acordo que torne viável a permanência da Grécia na zona do euro com manifestação do Fomc de que ainda não está seguro sobre o momento mais propício para iniciar a normalização monetária. No outro extremo, juntam-se o calote da dívida grega e o seu desligamento da moeda única e o risco de alta iminente da “fed funds rate”.

Pelas incertezas do cenário, foi abusada demais a queda registrada ontem pelo dólar frente ao real. A moeda americana desvalorizou-se 1,02%, vendida a R$ 3,0953. Se o Fomc ficar hoje em cima do muro, estará na hora de o BC ampliar o resgate dos swaps cambiais que vencerão na virada do mês. Por enquanto, se mostra disposto a renovar 75% do lote de US$ 8,74 bilhões. A queda do dólar deu o impulso primário, quase exclusivo, ao declínio dos contratos de juros futuros. A taxa para a virada do ano recuou de 14,31% para 14,28%. E o contrato com liquidação em janeiro de 2017 cedeu de 14,05% para 13,96%.

Dificilmente, o DI futuro reagirá à divulgação hoje do IBC-Br, índice de atividade do BC considerado uma prévia confiável do PIB, mesmo que a queda seja alarmante. A expectativa dos analistas é de um recuo perto de 0,5% em abril, elevando para 2% a contração da economia no período de um ano. Ou seja, o IBC-Br estará apontando para um declínio superior às previsões de queda do PIB este ano dos analistas. E o segundo trimestre de 2015, que já está terminando, pode nem ser o pior do ano. Mas enquanto o BC não resolver internamente a intrincada questão do resgate da credibilidade, números ruins sobre a economia não serão capazes de comovê-lo.

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