Por O Dia

O “payroll” de junho foi frustrante não só por mostrar uma criação de postos de trabalho aquém do previsto, mas sobretudo por contradizer e anular todos os indicadores positivos que saíram ao longo da semana. Ele jogou uma sombra sobre o futuro não somente ao informar que o presente não está tão bom quanto se supunha, mas também por tornar o passado pior do que já estava. E os economistas se lembraram do velho ditado, característico da profissão, segundo o qual mais difícil que acertar o futuro é prever o passado. O fato é que o Bureau of Labor Statistics (BLS) errou muito nos “payroll” relativos a abril e maio.

Ele tinha apontado para abril a criação de 221 mil postos, mas ontem reduziu o número para 187 mil, uma diferença desmoralizante de 34 mil. A revisão referente a maio foi ainda mais desonrosa: dos 280 mil iniciais para 221 mil agora. Um pequeno equívoco de 59 mil empregos. E o que acontecerá quando o número de junho, que já não foi bom, for revisado? Para o mês passado, o BLS registrou a criação de 223 mil vagas, 10 mil a menos que a mediana das expectativas dos analistas. O fato é que, no primeiro semestre do ano, a criação de postos foi 12,6% menor que a ocorrida em igual período de 2014. A taxa de desemprego só recuou de 5,5% para 5,3% porque parte dos desempregados desistiu de procurar ocupação.

O “payroll” e o PCE (índice de inflação dos gastos de consumo dos americanos) são os dois indicadores preferidos do Federal Reserve (Fed). Tudo mais pode estar bombando, mas se a recuperação econômica não chegar ao mercado de trabalho e não for detectada pelo PCE, não tem alta de juro. Foi por isso que ontem, após o “payroll”, o consenso do mercado de que o Fed iria subir a taxa básica em setembro começou a ser rediscutido. E a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano cedeu de 2,42% para 2,37%.

Não só por isso, os DIs futuros despencaram na BM&F. A taxa para janeiro de 2017 afundou de 14,02% para 13,82%. E o contrato com vencimento em janeiro de 2021 mergulhou de 12,75% para 12,59%. De 14,5%, taxa já incorporada à curva futura de juros, a Selic não passa. Hoje em 13,75%, a taxa não escapa de sofrer nova alta de 0,50 ponto no Copom do dia 29. Irá a 14,25%.

E o longo ciclo de aperto monetário iniciado em abril de 2013 pode terminar por aí mesmo. No máximo, admitiria uma saideira de 0,25 ponto no Copom seguinte, de 2 de setembro. É isso o que os tesoureiros e gestores que apostam dinheiro no pregão de juros futuros da BM&F entenderam das comunicações recentes do Banco Central. A revisão do discurso tirânico começou a ser feita na segunda-feira por um diretor acima de qualquer suspeita, o da área internacional. Formado nas mesas de operações situadas do outro lado do balcão, Tony Volpon retirou do afinco demonstrado pelo BC na caçada ao centro de 4,5% da meta de inflação o seu caráter doentiamente obsessivo.

Disse que bastava assegurar a meta “satisfatoriamente”. Ou seja, não precisa cravar na mosca. Até porque, dado o zelo desmedido empregado no encalço da meta, corria-se o risco de se obter no ano que vem um IPCA abaixo de 4,5%. Na quarta-feira à noite, em evento em São Paulo, o presidente Alexandre Tombini não se limitou a não contradizer o mais novo integrante do Copom. Mesmo se se contentasse meramente em não desmenti-lo, já dissiparia a impressão de alguns analistas de que Volpon teria escorregado em função do seu noviciado.

Mas o presidente foi além. Os recados do BC são compostos tanto pelo que diz quanto pelo que omite. E Tombini, no seu discurso, se esqueceu de afiançar que os esforços monetários até agora empreendidos ainda não foram “suficientes” — palavra-código que indica a continuidade do ciclo de alta da Selic.

Ao mesmo tempo em que repisou os “guidances” tradicionais — vigilância, determinação e perseverança – Tombini manteve aberta a janela, por onde podem esvoejar os pombos, franqueada por Volpon ao informar estar vendo melhoras inflacionárias sensíveis no horizonte que vai além de 2015.

E ontem o diretor de Política Econômica do BC, Luiz Pereira da Silva — a quem compete a redação final das atas do Copom — exercitou, em Paris, o seu esporte favorito: o de repetir literalmente o “coponês” consignado em ata. Tal reiteração não pode ser considerada uma atenuação do tom menos amargoso do seu colega da área externa. Conclusão do mercado: a meta continua sendo 4,5%, está quase lá e, portanto, a Selic não passa de 14,5%.

Diante da nova postura do BC, considerada menos “hawkish”, os dados ruins sobre atividade começaram a pesar sobre os DIs. Embora tenha vindo melhor do que o esperado, a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE não altera o quadro dramático da indústria nacional. Nem autoriza ninguém a supor que o Copom está sendo bonzinho com a atividade. A produção cresceu 0,6% em maio, quando os economistas previam queda de 0,4%.

A alta ocorreu, contudo, por efeitos estatísticos derivados de ajustes sazonais. Basta constatar que, se o critério for o dado acumulado nos últimos doze meses, a queda se aprofunda de 4,8% em abril para 5,3% em maio. Generalizada pelos setores, a contração da indústria aponta para uma recessão de 2% este ano.

Últimas de _legado_Notícia