Falta de licença ambiental ameaça 16 mil empregos

Sob pressão para paralisar atividades, siderúrgica em Santa Cruz já investiu R$ 150 milhões para cumprir exigências ambientais e ganha mais 90 dias de prazo

Por O Dia

Rio -  Uma ‘chuva de prata’ tomou conta dos céus de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, por três vezes, entre 2010 e 2012. A fuligem, decorrente dos altos fornos da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), cobriu casas e carros e deixou moradores doentes. Era o começo de uma batalha que ganhou mais um round na última semana. Pressionada a cumprir todas as 134 exigências ambientais previstas em acordo judicial para obter a licença de operação, a CSA foi alvo de uma audiência pública na Alerj para discutir os impactos que provoca.

Dez ações contidas no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) — assinado com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) em março de 2012 — ainda não foram cumpridas. Isso colocaria em risco as atividades da siderúrgica, que gera 6 mil empregos diretos — 61% deles ocupados por moradores da região — e 10 mil indiretos. Mas a empresa acaba de receber da Ceca (Comissão Estadual de Controle Ambiental) a garantia de que terá mais tempo na corrida contra o relógio. Uma licença provisória substitui o TAC, que vence na próxima sexta-feira, e dá mais 90 dias para que a siderúrgica se enquadre nas exigências ambientais.

Desde 2010 a CSA é alvo de críticas por poluição. Fiocruz diz que emissão de gases com metais pesados ameaça saúde de moradores e operáriosDivulgação

"Pedra no sapato" da CSA desde as obras, ativistas do Instituto PACS tentam pressionar os órgãos responsáveis e a sociedade pela não renovação da licença. Alegam condutas perigosas para a saúde pública, segundo pesquisa da Fiocruz e denúncias de moradores e trabalhadores, e que também prejudicam a atividade pesqueira na região. A ONG lançou recentemente o movimento #PareTKCSA nas redes sociais e em outdoors nas avenidas Brasil e Presidente Vargas, exigindo a paralisação das atividades da companhia.

Pesquisa da Fiocruz apresentada na Alerj mostra que a fumaça liberada pela CSA é altamente poluente e coloca em risco a saúde de trabalhadores e moradores. Segundo a pesquisa, o pó que é liberado contém muito ferro e metal, o que pode causar doenças cardiorrespiratórias e aumentar a propensão ao câncer.

Alheio ao barulho que ambientalistas e especialistas em saúde pública têm feito para que a empresa paralise as atividades — foi  o presidente da CSA, Walter Medeiros, diz estar confiante na obtenção da licença e que o projeto veio para ficar. “Não estou otimista, mas realista. Estamos cumprindo todas as exigências feitas até agora e está faltando muito pouco”, disse, em entrevista ao DIA

Multada três vezes pelo Inea, no total de R$ 17,5 milhões, a CSA recorreu das multas. “No início houve erros, os equipamentos não funcionaram de forma perfeita, não havia sistema de captação”, reconhece o CEO.

A CSA investiu até agora, segundo ele, cerca de R$ 150 milhões para cumprir o TAC, sendo R$ 30 milhões apenas em filtros de um sistema de despoeiramento inédito em siderurgias em todo o mundo. Uma bagatela diante dos 6,5 bilhões de euros (mais de R$ 26 bilhões) que a unidade custou a um dos maiores grupos siderúrgicos do mundo, a alemã Thyssenkrupp.

Uma rápida visita à CSA permite identificar um verdadeiro canteiro de obras para cumprir as exigências do TAC. Segundo Medeiros, 97% das medidas solicitadas já foram implementadas, como a construção de mais de 100 km de canaletas para receber dejetos da usina. Ele não critica a legislação ambiental no país, mas contemporiza: “Há indústrias que funcionam há mais de 50 anos sem licença operacional.”


‘Não existe zero emissão de CO2’, afirma o CEO da CSA

Apontada como a empresa que mais emite CO2 no Rio, a CSA diz que seu nível de emissões é 25% menor em relação às aciarias integradas convencionais em funcionamento no mundo. “Não existe usina com zero emissão”, afirma Medeiros. Ele garante, porém, ser esta a siderúrgica mais moderna do país, com práticas sustentáveis, como a capacidade de reutilizar 96% da água e reaproveitar subprodutos para geração de energia própria e produção de cimento.

Ele ainda faz questão de ressaltar a importância do empreendimento para a economia do país e de Santa Cruz. “De 2010 para cá, dá para contar nos dedos quantos projetos como esse saíram do papel. No Brasil, o último foi a CST (Companhia Siderúrgica Cubatão), na década de 70”. A Thyssenkrupp é dona agora exclusiva da CSA, depois que a Vale anunciou a venda, na última terça-feira (4), de sua participação (26,5%).

Somente no sistema de despoeiramento%2C a usina investiu R%24 30 milhões para não lançar fuligem no arDivulgação

O secretário estadual do Ambiente, André Correa, sinalizou com chances de aprovar a licença de operação da CSA. “Há um avanço nas medidas que foram exigidas, sobretudo nas emissões fugitivas, chamadas de chuva de prata. Mas nós só vamos fornecer a licença se todas as exigências tiverem sido cumpridas”, afirmou, na Alerj.

O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol), que convocou a audiência, porém, quer que o Ministério Público sejam ouvidos antes da concessão. “Não queremos tirar o emprego de ninguém, mas qualquer empresa precisa cumprir a lei”.



A jornalista visitou as instalações da CSA a convite da empresa.

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