Por thiago.antunes

Rio - El Niño, calor e chuva. Massa polar, frio, vento e ressaca. A bagunça climática pela qual o Rio vem passando nos últimos meses já resultou em tragédia — a queda da ciclovia Tim Maia, que causou a morte de duas pessoas. Repleta de obras costeiras e áreas de lazer e turismo, a orla da cidade passa a demandar um cuidado especial, seja em relação à segurança de transeuntes ou aos riscos de erosão de praias e construções.

Segundo o oceanógrafo David Zee, o Rio está suscetível a ter mais duas ou três grandes ressacas ao longo do ano, o que exige estudos mais imediatos. Ele vai apresentar à Defesa Civil, esta semana, uma proposta de estudo, com duração de cerca de duas ou três semanas, a fim de mapear as áreas da orla que podem ser interditadas em caso de fortes ressacas. Ao DIA, o especialista listou alguns pontos que devem ser evitados em momentos de mar agitado. “Eu quero prevenir mortes”, explica.

Mapa de ressacas do RioArte%3A O Dia

Zee atribuiu à longa duração de El Niño os acontecimentos climáticos recentes. Além disso, defendeu que os episódios são um reflexo das mudanças pelas quais o clima vem passando. Com isso, disse, as ressacas tendem a ficar mais recorrentes, por causa do aumento de ventos, que provocam as ondas. As consequências, além do perigo imediato para transeuntes, podem aparecer manifestadas na erosão de praias e obras costeiras. Calçadão, postos na areia e a Praia do Arpoador são alguns exemplos citados pelo especialista.

A preocupação não se limita à capital fluminense. David Zee ilustra os perigos das ressacas ao mencionar o caso da Praia de Piratininga, em Niterói, que, na última quinta-feira, viu o mar passar da faixa de areia e causar destruições no calçadão.

Para David Zee, uma solução rápida e barata para preservar algumas áreas seria revisar as praias e fazer uma “engorda” nas que estão muito “enfurnadas”. A revitalização de restingas, por exemplo, ajudaria a combater esses problemas, de acordo com o oceanógrafo.

O discurso de Zee vai ao encontro do que diz o estudo ‘Brasil 2040’, encomendado em 2015 pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, noticiada pelo DIA em novembro do ano passado. O trabalho alerta para as chances de várias áreas da cidade inundarem nos próximos 25 anos. São regiões, inclusive, nas quais estão localizados hospitais, estações de metrô e trem, e até o ainda inexistente VLT.

Ondas gigantes atingem o Arpoador%2C uma das áreas mais sensíveisAlexandre Brum / Agência O Dia

Os principais prejudicados, porém, seriam bairros da Zona Sul, como Ipanema, Copacabana e Botafogo, além da Barra da Tijuca e da Ilha do Fundão. De acordo com a pesquisa, realizada pelo Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), as áreas de média ou alta vulnerabilidade são locais baixos e planos, próximos ao oceano ou a canais de drenagem, que estão mais suscetíveis a alagamentos.

O estudo aponta dois cenários possíveis. No mais otimista, o mundo tentaria amenizar as mudanças climáticas. Nele, uma área do Rio que abrange bairros da Zona Sul e a Barra da Tijuca, cuja construção imobiliária é avaliada em R$ 109 bilhões, estaria ameaçada pelo aumento de 0,33 metro no nível do mar.Mas, se não forem tomadas medidas para controlar o clima, entraria em cena o cenário pessimista. Nele, a cifra chegaria a R$ 124 bilhões. 

Praias oceânicas mais vulneráveis

O estudo ‘Impactos Potenciais das Mudanças Climáticas na Cidade do Rio de Janeiro e Possíveis Ações de Mitigação’, publicado no Portal Geo Rio, da Prefeitura do Rio, mostra que a orla mais exposta é a que está diretamente voltada para o oceano aberto.

Em termos de vulnerabilidade, esta faixa abrange principalmente as praias oceânicas. Por isso, são as que apresentam maior perigo, considerando três fatores: estão voltadas diretamente para a incidência de ondas de tempestade, são delimitadas por pontas rochosas e apresentam déficit potencial de sedimentos.

Ano passado, o secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, informou que daria início, em 2016, ao Plano Estadual de Adaptação às Mudanças Climáticas, que terá como horizonte o ano de 2050. O DIA tentou contato com Corrêa para detalhar o plano, mas não obteve resposta.

Reportagem do estagiário Caio Sartori

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