Por cadu.bruno
Publicado 03/09/2016 22:41 | Atualizado 03/09/2016 22:52

Rio - A indústria da moda é a quinta mais poluidora do mundo. Para se ter ideia, para a produção de apenas uma calça jeans são utilizados 135 litros de água. Além disso, quilos e mais quilos de roupas que consumimos anualmente produzem uma quantidade enorme de resíduos. É neste cenário que ganha espaço a chamada moda ética e crescem os negócios que estão inovando e incorporando práticas mais responsáveis, pensando desde a criação das peças até como será o descarte.

A Feranda Jeans, por exemplo, buscou uma solução para minimizar os impactos ao meio ambiente. A marca anuncia ser a primeira do Estado do Rio a apresentar a lavagem de todos os seus jeans com ozônio. A técnica diminui a necessidade de enxágues na lavagem do índigo a seco ou aplica o gás na água para deixar o jeans no ponto sugerido pela estilista. O resultado é a economia de cerca de 85% de água. A água que é utilizada durante o processo ainda passa por tratamento para ser reutilizada. Além de poupar milhares de litros de água e produtos químicos, o tempo de vida útil das peças é otimizado, pois, sem o atrito com a água, o desgaste do tecido é menor.

Jeans que seria descartado é customizado pela Migg Jeans%2C a ganhadora do Prêmio Rio Viés Moda 2015Divulgação/ Carla Vieira

“Desde a fundação da marca, muito antes de surgir toda essa conversa sobre sustentabilidade, meus pais já se preocupavam em não agredir o meio ambiente.

Sempre tivemos lavanderia própria, para que pudéssemos tratar a água e reutilizá-la”, conta Alessandra Varanda, de 35 anos, que comanda a segunda geração da Feranda. Ela conta que em 1993, seu pai também investiu mais de R$ 800 mil em um sistema de tratamento de água que diminuía o envio de resíduos para os afluentes após a produção do jeans.

Já a Zoia aposta em materiais aparentemente supérfulos para confeccionar brincos, pulseiras e outros acessórios. Peças em alumínio reciclado a partir das cápsulas de café são um diferencial da marca para dar uma destinação artística e útil a este material descartado após seu uso. Papelão, tetrapak e chapas de raio-X recicladas estão também são incorporadas ao portfólio de produtos.

“Acreditamos que se não der para fazer um produto 100% reciclado, que se comece de alguma forma. Esta transparência é muito importante na nossa relação com o consumidor. Por isso sempre tivemos algumas linhas do nosso trabalho voltadas para quebrar certos paradigmas e transformar o olhar do consumidor, com foco em resíduos e materiais transformados“, destaca Vanessa Wagner, idealizadora da Zoia, criada há quase 10 anos.

Para Elizete Ignácio, diretora da Clave de Fá Pesquisa Social e Inovação, a moda ética não é modismo e nem tendência, já é realidade. “Na Europa a indústria da moda ética tem crescido mais que a moda convencional. No Brasil já temos muito mais empresas preocupadas com este tema e novas iniciativas surgindo”, afirma.

Jeans produzido pela Feranda elimina necessidade de 85% de águaDivulgação

Desafio não é mais só o preço 

A especialista destaca que o desafio é ampliar o mercado consumidor. Segundo ela, até pouco tempo o desafio era preço, em geral, mais caro do que a indústria convencional, sem essa pegada sustentável. Segundo ela, não basta ter preço, mas o produto ser de péssima qualidade, fruto de mão de obra escrava, ou que provoca danos ao meio ambiente. “O mercado consumidor tem que perceber a relação custo-benefício e o processo ético embutido no preço. Quanto maior o consumo de moda ética, maior será a oferta“.

Prêmio reconhece práticas inovadoras na indústria

Em sua segunda edição, o Prêmio Rio V.I.É.S Moda, que reconhece práticas inovadoras e éticas na indústria da moda carioca, surgiu de pesquisa feita em 2011 pela Clave de Fá Pesquisa Social e Inovação. O estudo apontou que um dos principais problemas do setor está na gestão, tanto em processos de produção, quanto financeira, e a necessidade de pequenas indústrias e ateliês estarem alinhados ao novo perfil do consumidor, cada vez mais atento às tendências criativas e sustentáveis.

Uma das vencedoras do ano passado é a Mig Jeans, que customiza peças que seriam descartadas. Este ano, o prêmio presta homenagem à estilista Zuzu Angel, nos 40 anos de morte da primeira brasileira a mostrar suas criações no exterior. “Zuzu sempre trabalhou a temática original brasileira, usando cores tropicais e materiais típicos. Foi pioneira no uso de pedrarias, peças de bambu, madeira e conchas, fitas de gorgorão, rendas do norte e chita, o que até hoje representa o Rio e o Brasil lá fora”, diz Alexandre Bojar, do Instituto Eixo Rio.

O prêmio é voltado a micro e pequenas empresas, nas categorias Valor Social, Identidade em Design, Excelência em Gestão ou Sustentabilidade Ambiental. As inscrições estão abertas até dia 11 pelo site http://www.rioviesmoda.com.br/.

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