Mudanças climáticas: Rio cada vez mais vulnerável

Estudos mostram que taxa de exposição da população a riscos sociais, naturais e tecnológicos no Rio é de 78%, a maior do país. Geografia impõe novos desafios

Por O Dia

Rio - Ressacas como a que deixou um mar de areia no calçadão do Leblon na semana passada devem ser cada vez mais frequentes à medida em que as mudanças climáticas geradas por ações humanas se intensificam. A taxa de exposição da população a riscos sociais, naturais e tecnológicos no Rio é de 78%, a maior do país. A qualidade da água, o consumo de energia e até o sistema de saúde pública podem ser afetados.

As cidades brasileiras não estão preparadas, segundo relatório que será apresentado esta semana pelo Painel Brasileiro Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) na conferência mundial sobre o clima COP22, em Marrakech, no Marrocos. Para Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do PBMC, os municípios devem tomar a frente do debate: o Brasil terá 90% da população em cidades até 2020. Não se trata apenas de reduzir emissões, mas também de se adaptar às consequências. “É necessário se preparar: os problemas causados no âmbito global acontecerão de forma local”, disse.

Ressaca que sacudiu a orla no final de semana passado são um alerta%3A eventos climáticos no Rio podem se intensificar com ação do homemMárcio Mercante / Agência O Dia

De acordo com a Secretaria municipal de Meio Ambiente, o Rio foi a primeira cidade do hemisfério sul a fazer a Verificação do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa, em 2013, e permanece sendo uma das poucas a fazê-lo. Mas, por causa de sua geografia singular, a capital tem mais desafios. Por se tratar de um município costeiro, o Rio é mais sujeito à alta do nível do mar, aponta o PBMC. Além disso, a ocupação em morros e o aterramento de áreas nas baías de Guanabara e Sepetiba levaram ao uso de redes de drenagem, retificação e canalização pluvial, o que acabou agravando o número de inundações. O já precário sistema de saúde pública também pode sofrer um inchaço.

Com o aumento de 25% no regime de chuvas na região sudeste da América do Sul e com a subida de temperatura, as doenças transmitidas por mosquitos podem sofrer um salto, diz o estudo.

Por essas razões, o prefeito eleito do Rio, Marcelo Crivella, deve estar antenado às questões ambientais, de acordo com o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “As mudanças climáticas colocam uma lente de aumento na falta de planejamento urbano e de políticas públicas. Não lembro de ver o prefeito eleito falando sobre clima e ele tem a obrigação de mostrar para a população que isso será considerado de forma responsável”, analisou.

Os cidadãos têm papel especial na cobrança das autoridades, diz Rittl. Além disso, iniciativas individuais como o uso de transportes públicos — especialmente o metrô —, a redução no consumo de energia e a economia da água são importantes no controle das emissões.

Rio é o 10º em emissões

Em 2015, o Estado do Rio emitiu 0,3% gases de efeito estufa a menos que no ano anterior. Já os níveis nacionais aumentaram 3,5%. Os números foram levantados pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima (OC).

A taxa coloca o estado em 10º no ranking de emissões nacionais. Segundo Carlos Rittl, secretário-executivo do OC, a cidade tem a vantagem de ter freado a destruição da Mata Atlântica, graças, principalmente, a iniciativas da sociedade civil. “O Rio mostra que é possível parar o desmatamento e restaurar florestas importantes. E, principalmente, fazer com que essas florestas cumpram o papel de fornecer água. Sem floresta, não tem água”, disse.

Um dos principais potenciais de redução nas emissões está no aumento da capacidade do metrô — a cada 550 mil passageiros a mais, são estimados 204,4 mil MtCO²e (unidade de medida de emissões) a menos.

Reportagem da estagiária Alessandra Monnerat

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