Candidato derrotado em Japeri acusa os mais votados de também ter comprado votos

Vereadores negam. Dona Lourdes mostrou-se irredutível quanto ao conceito de honestidade: reprovou a conduta do filho, que admitiu ter comprado 50 votos por R$50 e passou-lhe a reprimenda

Por O Dia

As lições de Dona LourdesArte O Dia

Rio - 'Só entrou bandido!’, confessou José Carlos de Souza, o JC, 47 anos, à mãe, Dona Lourdes de Souza, de 61 anos, sobre a última eleição para a Câmara de Japeri, na Baixada Fluminense, um dos municípios mais pobres do estado. Eleito suplente de vereador, o político ainda foi mais longe na sua ‘avaliação’: os quatro primeiros colocados das 11 vagas teriam gasto R$ 900 mil para comprar votos.

Ele se referiu a Wesley George de Oliveira, o Miga, do PP, (R$ 300 mil); Helder Pedro Barros, PSL, (R$ 200 mil); Alex Gonçalves, PSL (R$ 200 mil), e Roberta Bailune, do SD, (R$ 200 mil), atualmente afastada porque é secretária de Educação de Japeri. Mas Dona Lourdes mostrou-se irredutível quanto ao conceito de honestidade. Ela reprovou a conduta do filho, que admitiu ter comprado 50 votos por R$50 e passou-lhe a reprimenda. “Trabalho sério comprando voto não é trabalho sério.”

Candidato derrotado na eleição legislativa de Japeri acusa os mais votados de%2C assim como ele%2C segundo gravação%2C ter comprado votosReprodução

As confissões de JC à mãe em 17 de outubro, logo depois do primeiro turno da disputa eleitoral, foram em conversa telefônica, gravada com autorização da Justiça, porque ele é investigado por encomendar serviços de uma quadrilha especializada em fraudar documentos no Detran. Como O DIA mostra desde ontem na série ‘Lições de Dona Lourdes’, o pito cai como uma luva para as mães de todos os maus políticos denunciados em operações como a Lava Jato, que estarrecem o país com tanta corrupção.

Os casos relatados por JC também ganharam eco na Justiça. O promotor Marcus Vinicius Leite pediu à 28ª Vara Criminal que encaminhe a conversa telefônica ao Ministério Público Eleitoral para investigar abuso de poder econômico. A promotora eleitoral de Japeri Julia Valente Moraes informou que tão logo a documentação chegue vai pedir à Polícia Federal para investigar. “Não recebi nada até agora, mas quando o material chegar vou requisitar a instauração de um inquérito na Polícia Federal para apurar a compra de voto”, afirmou Julia.

Presidente da Casa, Miga, PP, eleito com 1.501 votosDivulgação

Se comprovada a denúncia, os acusados poderão ficar inelegíveis por até oito anos, além de responder criminalmente — a pena é de até quatro anos de reclusão. Presidente da Câmara e primeiro colocado na eleição com 1.501 votos, Miga foi lacônico: “Não tenho o que falar. A boca é dele (JC), ele fala o que quiser. Mas se ele falou, vai ter que provar”. A reportagem não localizou Helder. Quarta-feira à tarde, ele não estava no plenário. Com relação a Alex Gonçalves, a informação era de que ele estava fora do município e não foi localizado até o fechamento desta edição. 

Meio mandato para quitar investimento

Cada vereador da Câmara Municipal de Japeri embolsa por mês de salário o equivalente a R$ 10.500. Se levarmos em conta, por exemplo, que um vereador gastou R$ 200 mil para se eleger, ele teria financiado o equivalente a quase 20 meses de mandato. A realidade financeira desta conta contrasta com o dia a dia dos moradores do município, que sofrem com a falta de saneamento básico, hospitais e serviços de infraestrutura, como internet.

Alex Gonçalves, do PSL, eleito com 1.381 votos, e Helder, do PSL, terceiro colocado, com 1.224 votosDivulgação

Segundo dados do IBGE, a população é estimada em 100.562 pessoas. Mas quase metade da população sobrevive com o Programa Bolsa Família. Segundo a prefeitura, no ano passado, quando houve recadastramento, o número de famílias chegava a 18 mil, o equivalente a 40 mil pessoas, o que representa 40% da população.

O DIA percorreu os bairros considerados mais pobres, que ocupam os últimos lugares do ranking do IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios) do Rio, como Santa Amélia e Santo Antônio. No cenário, ruas esburacadas e casas pobres. Tudo a apenas 70 quilômetros da capital. Em média, o orçamento anual da prefeitura gira em torno de R$ 200 milhões; a maior parte da verba sai dos cofres do Estado e da União. Este ano, a prefeitura tem R$ 143,4 milhões. A Saúde conta com R$ 40 milhões.

Secretária rechaça denúncia de José

Eleita com 1.042 votos, Roberta Bailune, do SD, está no comando da Secretaria de Educação desde a gestão passada do prefeito Ivaldo Barbosa, o Timor. Agora, quem comanda a prefeitura é Carlos Moraes, do PP. Ela recebeu as confissões de José Carlos de Souza, o JC, com surpresa e indignação. “Ele (JC) fala dos quatro primeiros colocados. De repente, tirou isso por hipótese. Sou professora concursada há mais de 20 anos, tenho uma história”, afirmou.

Roberta Bailune%2C secretária de Educação de Japeri%2C destacou sua trajetória como servidora do municípioCleber Mendes

Roberta nega qualquer possibilidade de ter comprado votos. Ela fez questão de ressaltar que fez uma carreira como funcionária do município. “Fui orientadora pedagógica, coordenadora e diretora de ensino para chegar até a secretaria. Também fui secretária na gestão anterior, então acho que ele citou meu nome porque também sou mulher. Ainda acontece um pouco de preconceito”, analisou.

Segundo Roberta, na sua gestão, Japeri avançou no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). “Avançamos oito posições. Estamos trabalhando muito. Temos projetos reconhecidos pelo Ministério Público.” Roberta disse ainda que não sabe se vai tomar providência contra JC. “Fiquei sabendo tudo agora por você. Já ouvimos coisas, que ele foi preso, mas nem o conheço”, alegou.

Leia a íntegra da conversa:

Filho: Ó, mãe. Olha só... O Helder, no dia da eleição, gastou R$ 200 mil; o Miga gastou uns R$ 300 mil; Bailune gastou uns R$ 200 mil; Alex, uns R$ 200 mil.
Só entrou bandido! Foi bom eu não entrar. Entrou muito bandido, entendeu? A gente estava fazendo um trabalho sério. Eu não entrei porque o povo não votou. Acabou. Ponto.

Mãe: Mas trabalho sério comprando voto, meu filho, não é trabalho sério.

Filho: Mãe, então não entrava nenhum vereador.

Mãe: É por isso que você perdeu.

Filho: Mãe, todo mundo que entrou (sic), só entrou ladrão, todos eles gastaram milhões de reais. Eu não entrei porque o povo não votou em mim, pô. Acabou.

Mãe: E você, sem poder, fica comprando voto dos outros. Aí, você imagina, né.

Filho: Foi bom perder que eu vou cuidar da minha vida. Essa cidade já deu o que tinha que dar. Eu fiz muito e não fui reconhecido. É botar a vida para girar e arrumar um emprego.