Registros do 16º BPM sumiram no dia da morte de líder comunitária

Controle de presença indicaria quem estava de serviço quando vítima foi assassinada

Por O Dia

Rio - Policiais militares sumiram com documentos que registram o controle de presença e deslocamento da tropa do 16º BPM (Olaria) em 8 de dezembro do ano passado. A data coincide com o dia do assassinato da presidente da Associação de Moradores da Cidade Alta, Glória Maria dos Santos Miccas, em Cordovil, na Zona Norte. O crime é classificado como “cruel e ardiloso”, segundo agentes da Divisão de Homicídios da Capital, que apuram o caso. 

A vítima é apontada como a responsável pelo pagamentos de propina aos PMs que permitiam aos traficantes até o uso do caveirão da corporação para disputar o território entre bandidos das facções criminosas do Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) na comunidade Cidade Alta. Os valores chegariam a R$ 1 milhão.

Corregedoria apura participação de PMs no assassinato de Glória Maria dos Santos Miccas em dezembroReprodução/Facebook

De acordo com as investigações não foram só os registros de presença que desapareceram, mas todas as anotações do expediente do batalhão, ou seja, fatos que ocorreram no dia 8 de dezembro na unidade foram ‘apagados’, sem deixar rastro de nenhum histórico.

Mas a sindicância 058/033/2017 só foi aberta pelo comando da unidade depois que os agentes da Delegacia de Homicídios requisitaram os documentos. No início do mês passado, ordem da cúpula da PM, nove militares do 16º BPM foram transferidos da unidade.

Para os investigadores, salta aos olhos a proteção de policiais militares ao cabo Nilton Carlos da Costa Júnior, acusado de envolvimento na execução de Glória. Muitos alegaram que, na hora do crime, ele estava na Assembleia Legislativa (Alerj), no Centro do Rio.

As declarações, no entanto, são tratadas como um álibi dos aliados do militar para ele escapar da acusação. Dez PMs foram conduzidos coercitivamente para prestaram depoimento à polícia por ordem da Justiça.

Preso terça-feira, o cabo Costa Júnior está com a prisão temporária por 30 dias decretada pelo 3º Tribunal do Júri da da Capital. Na ação contra Glória, Lucas Miccas Fernandes, filho da vítima, foi baleado, mas sobreviveu.

As investigações apontam que policias do 16º BPM ajudavam traficantes da facção do Terceiro Comando Puro, que controlam o tráfico na Cidade Alta, desde novembro e estavam sendo atacados pela quadrilha do Comando Vermelho. O contra-ataque era porque bandidos do CV foram expulsos da comunidade e lutavam para retomar o território.

Polícia investiga superior de cabo preso nesta semana

Pelo menos um superior do cabo Nilton Carlos da Costa Júnior, preso por suspeita de envolvimento na morte da líder comunitária Glória Miccas Fernandes, pode estar envolvido no plano para tentar livrá-lo das acusações.

A Polícia Civil investiga se Costa Júnior que servia no Posto de Policiamento Comunitário do Jardim América teria sido orientado a montar um álibi. O objetivo era dizer que estava de folga, quando na verdade estaria trabalhando no dia do crime.

A relação promíscua de homens da lei com traficantes de drogas permitiria ainda que os bandidos usassem a farda PM. Um deles seria Álvaro Malaquias Santo Rosa, conhecido como Peixão.

Segundo as investigações, ele teria usado o uniforme da corporação, inclusive, no dia que participou do assassinato de Glória. A Corregedoria da PM apura o caso.

A morte de Glória está ligada à briga entre as duas facções criminosas que lutam pelo comando da Cidade Alta. Policias queriam que Glória, nascida e criada na região, deixasse de apoiar o Comando Vermelho e também se debandasse para o Terceiro Comando Puro.

A participação de PMs na morte está ligada à rede de propina montada com os criminosos. Glória foi morta logo depois de participar de reunião do Conselho Comunitário de Segurança no 16º BPM.

Operação da PM gerou ataques

No mês passado, ação da PM prendeu 45 traficantes do Comando Vermelho. Com ele foram apreendidos 32 fuzis. A operação, cujo resultado foi elogiado pela cúpula da PM, acabou também sendo o estopim para a transferência de nove PMs do 16º BPM (Olaria) como mera medida administrativa.

Na ação participaram PMs de outros batalhões, como o o 22º BPM (Maré), do Batalhão de Ações com Cães (BAC) e do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Tropa de Elite da corporação.

Após a operação, o entorno da comunidade viveu um dia de caos. Nove ônibus e dois caminhões foram incendiados na Avenida Brasil e na Rodovia Washington Luiz. Os desvios de conduta de PMs lotados no batalhão de Olaria na Cidade Alta também foram alvos de denúncia anônima e de áudios que circularam nas redes sociais.