Campos tinha convicção de que a economia de mercado e o estado mínimo eram a melhor maneira de promover o desenvolvimento

Por O Dia

Rio - Se a Constituição tivesse sido promulgada um ano depois, também seria diferente, já que em 1989 ruiu o muro de Berlim.

Um parêntesis para tratar de um problema de saúde pública: ao assistir pela TV a uma sessão do Congresso lotado, deputados e senadores ombro a ombro trancafiados num anfiteatro sem nenhuma ventilação ou iluminação natural, repleto de perdigotos, miasmas e ácaros. Mais insalubre do que esse ambiente, só mesmo a cabeça da maioria dos parlamentares.

Uma ode ao arquiteto que projetou obras de traços tão lindos, mas que desprezou a infinitude de ar e luz que estava presente em Brasília, à disposição de quem quisesse dela tomar posse, a partir do nada.

Ou "nonada", como diria Guimarães Rosa.

Com igual missão, o arquiteto inglês Norman Foster partiu de um prédio soturno, semidestruído após a guerra, para construir o novo Reichstag, em Berlim. O resultado é que ali, no alto da nova torre, entra luz natural até atingir o pavimento térreo, lá embaixo, onde se reúne o Parlamento alemão.

Talvez uma parte do obscurantismo interesseiro com que são tratadas as nossas questões nacionais seja oriunda das catacumbas do Congresso, escravo eterno do ar-condicionado. Sendo pertinente perguntar se sobra verba no orçamento nacional para a limpeza dos filtros enegrecidos pelas emanações dos congressistas.

Algumas das frases de Roberto Campos, por ocasião da Constituinte de 1987, devem ser lembradas, neste ano em que ocorre o centenário de seu nascimento: "O que os governos latino-americanos desejam é um capitalismo sem lucros, um socialismo sem disciplina e investimento sem participação de estrangeiros"; "O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito";"Uma vez criada a entidade burocrática, ela, como a matéria de Lavoisier, jamais se destrói, apenas se transforma".

Campos tinha convicção de que a economia de mercado e o estado mínimo eram a melhor maneira de promover o desenvolvimento.

Hoje, o que temos no Brasil é um estado a caminho de quebrar, com uma máquina governamental gigantesca, onde todos os desperdícios são encarados com naturalidade, e onde o executivo declara, sem pudor, que não há mais nada no orçamento para cortar, sendo preciso arrecadar mais e mais, sempre.

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