01 de janeiro de 1970
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Irmãos transsexuais venceram obstáculos para achar a felicidade

Histórias da vida real mostram a dificuldade e a determinação de quem conclui que precisa mudar de sexo no Brasil

Por O Dia

O personagem Ivan, interpretado por Carol Duarte na novela 'A Força do Querer', foi, para milhares de brasileiros, o primeiro contato com a figura dos homens transexuais. As personagens de mulheres transexuais são vistas há mais tempo na TV aberta. Os autores enfrentam o desafio de evitar estereótipos ofensivos na hora de representá-las. Em comum, homens e mulheres trans carregam o desejo de adequar seus nomes e corpos ao gênero com o qual se identificam, vontade que não pode ser contida nem mesmo pelo preconceito que enfrentam e que parte, muitas vezes, de suas próprias famílias.

É o caso dos irmãos Barbara e Thiago Aires, ambos transexuais. Quando acreditava ser um menino homossexual, Barbara sofreu preconceito da família e morou nas ruas de São Paulo dos 5 aos 12 anos de idade, quando foi para um abrigo, onde ficou até os 15 anos. Ela então assumiu sua transexualidade e, aos 18, começou a tomar hormônios e adequar seu corpo ao gênero feminino. "Sou filha de um policial militar, hoje idoso, conservador, que nunca aceitou isso. Sou uma mulher trans. A prova viva de que identidade de gênero e sexualidade não são influenciáveis, são inerentes ao ser humano".

Poucos anos depois, Thiago se assumiu transsexual. "Aos 13 anos apareceu usando boné, roupas largas, cabelo cortado, e disse que era Thiago. Como ele era menor de idade, tive o cuidado de não conversar com ele sobre isso, para o meu pai não achar que eu estava influenciando", disse Barbara.

Quando Thiago completou 18 anos, pôde procurar ajuda médica especializada e iniciar sua transição. "Já uso meu nome social na carteirinha de estudante e também sou tratado no masculino no trabalho. Estou prestes a pegar meu laudo psiquiátrico, que vou usar para começar a mudar meus documentos", contou ele, que está prestes a completar 22 anos, cursa o 3º ano do Ensino Médio e acaba de ser contratado em seu primeiro emprego formal, como auxiliar de vendas.

Barbara hoje mora no Rio de Janeiro, e namora um homem transsexual, que já passou pela mastectomia e pela histerectomia (retirada dos seios e do útero): "O Thiago se espelha muito nele".

Ela é militante LGBT há cerca de dez anos e trabalha como assessora parlamentar do vereador David Miranda (PSOL), também ativista da causa. "Abracei porque a luta me diz respeito. Almejo o dia em que a sociedade pare de genitalizar as pessoas. Consideram que a mulher é uma vagina, e o homem, pênis. Quando isso mudar, vamos poder seres humanos", enfatizou.

O casal de irmãos diz que espera a evolução de políticas públicas que atendam à população trans. "Infelizmente ainda erram muito. Desconsideram o nome social, ou me tratam no feminino", lamentou Thiago. Para Barbara, a solução do problema passa pela educação: "A luta LGBT é apagada do ensino de história, por exemplo. E os alunos crescem achando que essas pessoas são anormalidades. Quando houver esse conhecimento, virá um efeito dominó. Teremos mais pessoas trans confortáveis para estar nas escolas, no mercado formal de trabalho e outros espaços".