Mutação no som do Secos & Molhados

Charles Gavin volta à bateria no Primavera Nos Dentes, que relê repertório do grupo de rock popular nos anos 1970

Por RICARDO SCHOTT

Baterista e criador da banda Primavera Nos Dentes, que relê de maneira moderna o repertório dos Secos & Molhados, o ex-titã Charles Gavin quase caiu na tentação de reproduzir os arranjos originais dos dois primeiros discos do grupo no álbum do Primavera (que sai em formato digital e vinil pela Deck).

"A gente viu que os arranjos daquela época não iam soar bem na nossa mão. Soavam bem há mais de quarenta anos, com aqueles músicos, aqueles instrumentos e aquela tecnologia. É uma obra com uma assinatura muito forte, quem pegar isso vai ter uma encrenca pela frente. Fazer diferente era a única chance que a gente tinha", recorda Gavin, que divide o trabalho com Paulo Rafael (guitarra), Duda Brack (vocal), Pedro Coelho (baixo) e Felipe Ventura (violino e guitarra).

O trabalho do quinteto deu outros ares a sucessos como 'Rosa de Hiroshima', 'O Vira' e 'Sangue Latino', e pouco conhecidas como 'O Doce e O Amargo' e 'Angústia'. "Algumas dessas músicas não são tocadas desde quando os Secos se separaram", conta.

PRAZOS NO ESTÚDIO

O Primavera No Dentes (cujo nome foi tirado de uma música do primeiro disco do Secos & Molhados) era para ser um projeto rápido e informal - e nem era para ser um disco, era para ser um show. "Isso de gravar um disco está cada vez mais fora do horizonte do músico. Mesmo para nós, que fomos educados dentro dessa cultura. No máximo o cara pensa em lançar uma faixa, um vídeo...", conta o músico, que soma dezessete discos gravados com os Titãs. E foi responsável por vários relançamentos de discos clássicos, junto às gravadoras (entre eles, os dois primeiros dos Secos & Molhados).

Depois de um ano e meio de ensaios, Rafael Ramos, produtora da gravadora Deck, gostou do projeto e disse que queria fazer um disco. "Isso acabou nos impondo um prazo. Algumas músicas nós tocamos só uma vez e fomos gravar", conta Charles, também envolvido em projetos na TV ('O Som do Vinil', do Canal Brasil) e rádio ('Em Cartaz', da Rádio Globo).

Os músicos foram sendo encontrados por Gavin por intermédio de amigos, ou em eventos. A ideia de chamar Paulo Rafael, guitarrista de Alceu Valença e integrante do grupo de rock pernambucano Ave Sangria, surgiu quando Gavin foi curador de um evento sobre guitarra brasileira. "E o Paulo sugeriu o Pedro, que foi do 'Cássia Eller - O Musical'. Pedi dicas de cantoras para o Felipe Abreu, que é irmão da Fernanda Abreu e é preparador vocal. Ele deu três sugestões mas foi bem assertivo quanto à Duda. Ela tem muito a ver com o Ney. E ainda trouxe o Felipe, que é da banda Baleia, e toca violino, que não é comum em rock", elenca.

Justamente por estar mexendo com um repertório sagrado, Charles está escaldado com a incompreensão de fãs xiitas dos primeiros discos do Secos & Molhados. "Bom, muita gente deve achar que não podíamos ter feito isso, assim como muita gente acha que só os Novos Baianos podem tocar o repertório do disco 'Acabou Chorare' (1972). Mas a gente se distanciou tanto do original que nem dá para comparar".

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Capa do disco da banda Primavera Nos Dentes Divulgação
Banda Primavera Nos Dentes Divulgação/Kaio Caiazzo

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