01 de janeiro de 1970
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Intensa

Por O Dia

Letícia Sabatella, que na próxima terça poderá ser vista na nova trama das seis, 'Tempo de Amar', confessa que a personagem Delfina já a arrebatou. "Ela é de uma riqueza incrível. Representa a mulher sem espaço, sem reconhecimento. E por isso segue um caminho sombrio", define. No folhetim de época, a atriz vive a empregada da família formada por José Augusto (Tony Ramos) e sua filha Maria Vitória (Vitória Strada). Delfina ajudou a criar a menina, mas suas intenções em ajudar a mocinha são duvidosas, e ela terá atitudes que vão prejudicá-la no decorrer da história. Além disso, Delfina nutre uma paixão reprimida por José Augusto, com quem tem uma filha não reconhecida, Tereza (Olívia Torres). Apesar do perfil ressentido e vingativo, Letícia não define sua personagem como uma supervilã.

"Ela é um barato, uma personagem muito bonita, bem desenhada, com muitas nuances. É uma mulher que tem seus motivos para ter esse espírito vingativo. Ela tem pouco espaço. Ao mesmo tempo que tem uma facilidade de compreensão de um feminino oprimido e que vai conquistar seu espaço de uma maneira sombria, pela ignorância, pela sombra mesmo", reflete a intérprete.

A atriz se desdobra para compreender e humanizar a rancorosa mulher da década de 1920. "Ela vai se tornando uma invejosa patológica. Dá pra pensar 'puxa vida, ninguém olha, ninguém reconhece o que ela fez de fato'. E ela fica o tempo todo jogando isso: que seus desejos não são levados em conta, seus interesses. E começa a ter interesses que são deturpados. O que ela vê como um ideal de realização para uma mulher, para a filha, acaba tomando caminhos que não são o que se deseja para nenhuma mulher: um casamento opressor. Mas ela vê aquilo como saída. É uma mentalidade arcaica, de época, uma mentalidade oprimida", esclarece, acrescentando sobre o desenho da personagem, que segundo ela, quer deixar de ser 'invisível'. "Ela é a vilã que se dá mal. Chega a dar pena, do quanto ela é miserável. Na hora que ela vai conseguir alguma coisa, sai sempre perdendo. Ela é uma perdedora do sistema. Vamos ver seu desenrolar como vai se dar, né?"

INSPIRAÇÕES

A mineira de Belo Horizonte conta que, entre as inspirações para compor Delfina, elegeu uma personagem histórica, retratada no filme 'A Rainha Margot' (1994).

"Embora seja de uma outra época, lá tem a personagem histórica da Catarina de Médici, que era uma rainha, que se casou muito cedo com o rei da França. Esse rei tinha uma amante. Catarina era humilhada, ela tem essa figura sombria. Ali tem a personagem da mágoa, da inveja, que não teve o espaço de rainha e que, ao mesmo tempo, tem uma inteligência e um amor pelos filhos. Tem essa distorção, esse transtorno psíquico parecido: esse amor que sufoca, que domina, que quer o reconhecimento de si e não tem, que é amarga, mal-amada, amargurada, cheia de rancor, vingativa, sofredora."

ESPAÇO E RESPEITO

Para Letícia, era um desafio ser mulher no país na década de 1920, e ainda é. "Ainda é cem por cento difícil. Estamos conquistando algum espaço, mas é só a gente analisar a nossa representatividade entre os que nos governam: menos de 10%. A gente ainda tem que batalhar por condições básicas de coexistência. Acho que ainda é um desafio", observa. "A sociedade precisa ter um olhar de mais equidade (respeito à igualdade de direitos). Tem a ver com educação, com a gente não perder espaços de cuidados sociais. Valorizar a condição do feminino na sociedade e, consequentemente, valorizar a condição da mulher", completa.

Atuante, ela também comenta o momento político no país. "Estamos vivendo uma situação em que temos, de fato, uma quadrilha no poder, uma corrupção que, já sendo endêmica, se torna cada vez mais avassaladoramente gritante. É um momento de lutar por direitos, de defender direitos básicos. Temos que acordar urgentemente, sair da apatia e nos protegermos de uma derrocada de muita degradação do nosso país".

INQUIETUDE

Linda aos 46 anos, a mãe de Clara, 24, de seu casamento com Ângelo Antônio, resume com duas frases sua "falta de preocupação" em listar cuidados de beleza. "Tenho uma facilidade de enfiar o pé na jaca e comer de tudo, e também uma facilidade de me desintoxicar. Um pouco de corretivo também ajuda", brinca. Com uma trajetória que se iniciou aos 14 anos, no teatro amador, e profissionalmente aos 20, Letícia se define inquieta e, mesmo com toda experiência, não se considera 'pronta'. "Quando observo minha história, vejo uma agilidade mental e criativa, um domínio da ferramenta. Vejo que ao longo da minha carreira fui construindo uma sensibilidade que já era grande, muito aguçada para o próximo, para o diferente. É um acréscimo de vida que vai para a carreira", reflete.

Intensa, ela não se recorda de arrependimentos. "Não lembro agora, não dá tempo de se arrepender, na verdade. É claro que sim, obviamente, mas tem uma resiliência, uma tranquilidade de caminhos que você resgata, e isso serve de alguma coisa. Você relativiza esses arrependimentos também, porque eles não vão servir para muita coisa durante muito tempo".

Além do folhetim, Letícia estreia em outubro, no Sesc Santo André, em São Paulo, ao lado do marido, Fernando Alves Pinto, 'A vida em Vermelho - Piaf e Brecht'. "Fazemos personagens que contam a história de Piaf e Brecht, e cantamos as músicas lindas que Piaf cantava", conta.