01 de janeiro de 1970
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de Jessé a Pagodinho

Histórias de infância que o sambista nem se lembrava mais aparecem em musical, que fala sobre sua relação com o sucesso e com os subúrbios do Rio de Janeiro

Por RICARDO SCHOTT

O cidadão Jessé Gomes da Silva Filho não foi esquecido pelos amigos de infância - que ainda o chamam pelo nome de batismo, dispensando o tratamento pelo nome artístico, Zeca Pagodinho. E esse salto do garoto do Irajá para o astro do samba, conhecido em vários países, é o combustível do musical 'Zeca Pagodinho - Uma História de Amor ao Samba', com texto, codireção e atuação de Gustavo Gasparani (que interpreta o sambista dos 18 anos até a meia-idade) e que estreia hoje no Theatro Net Rio, em Copacabana. "Tô voltando ao passado. Acredita que tem coisas na peça sobre minha infância que eu nem lembrava mais?", alegra-se o sambista, que adorou ver seus dois intérpretes em ação num ensaio geral: Gasparani e Peter Brandão, de 23 anos, conhecido por sua passagem no programa 'Gente Inocente' e em 'Malhação', e que faz o Zeca criança. "Botaram pra quebrar", garante.

SAGA DO PAGODINHO

Gasparani é o cara por trás de produções como 'Sambra - 100 Anos de Samba' (protagonizado por Diogo Nogueira) e 'Gilberto Gil, Aquele Abraço - O Musical'. Recentemente, dirigiu 'Bem Sertanejo - O Musical'. E imagine se a experiência o livrou do nervosismo na hora de interpretar Zeca diante do próprio. "Claro que fiquei muito nervoso!", diz, rindo e lembrando que Zeca viu sua performance numa sala de ensaio comum. "Você fica a meio metro da pessoa. Se der um passo à frente, pisa no pé dela. Era luz branca, não tinha nem luz de refletor pra te cegar e você não ver a pessoa ali", brinca. "Mas o legal foi que ele gostou mesmo. Eu fiquei tão nervoso que a única coisa que pensei foi: 'Isso é tão absurdo que só dá para relaxar e gozar'".

Gasparani, que foi ajudado na direção por Gustavo Gualda, diz que o objetivo não é fazer um Zeca "realista", mas mostrar os caminhos que levam do garoto que chegou a trabalhar como feirante, contínuo e anotador de jogo do bicho até o superstar do samba.

"Ele é tratado como um herói suburbano, como o cara que botou o subúrbio no mapa do Brasil. É uma saga. Falamos da infância e da adolescência nos morros, da relação com a religião. A gente coloca na peça essa dificuldade dele de lidar com o sucesso. Essa geração dele é de músicos que queriam ser compositores", conta Gasparani, definindo o sambista basicamente como "um cara maneiro, uma pessoa do bem, em meio a tantos pensamentos esquisitos, diretrizes equivocadas que as pessoas têm hoje em dia. Eu aprendi muito com ele. Em vários momentos, pensei: 'Poxa, eu não tenho essa capacidade, essa generosidade'". Na hora de soltar a voz, Gasparani diz que o maior desafio foi interpretar sem imitar. "Faço as divisões vocais dele, ele é o rei das divisões. Não tenho o timbre parecido, não tentei ficar fazendo igual".

SAMBA IN RIO

Além do musical, tem mais novidades de Zeca vindo por aí. Em 2019, deve aparecer um filme baseado na trajetória do sambista, inspirado no livro 'Zeca Pagodinho: Deixa o Samba me Levar', dos jornalistas Jane Barboza e Leonardo Bruno. O produtor Roberto Faustino apresentou uma sinopse para Zeca, e ela já foi aprovada. Em outubro, ele inaugura sua primeira roda de samba mensal, no Jockey Club. O 'Samba do Zeca' ganha inauguração dia 1º de outubro com o anfitrião e os convidados Maria Rita e Pretinho da Serrinha acompanhados por Paulão Sete Cordas (direção musical e violão), Waltis Zacarias (percussão), Rodrigo Jesus (percussão), Paulino Dias (percussão), Jorge Gomes (bateria), Alessandro Cardoso (cavaquinho) e Dudu Oliveira (sax e flauta). No repertório, além de composições do próprio Zeca (e de gemas pinçadas de seu repertório), sambas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Casquinha e outros nomes.

"Para mim, vai ser uma coisa muito boa, ainda mais neste ano que tá esquisito", conta Zeca. "Esse lance do Arlindo Cruz deixa a gente triste. Mas fica uma esperança para que aconteça o melhor, daqui a pouco ele volta". Um outro motivo de felicidade, não apenas para Zeca mas também para Gasparani, foi a tarde de samba que o Rock in Rio promoveu sábado passado no Palco Sunset, com nomes como Roberta Sá, Alcione e Monarco. "Ih, eu encontrei até o Roberto Medina outro dia num restaurante... Achei bom, samba é o que a gente tem de mais brasileiro", alegra-se o sambista. "Eu achei o máximo. O mundo precisa dialogar", conta Gasparani.