Convivendo com o clima de guerra

Por Carmen Cyrino Psicanalista, membro da Sobepi

Há tempos, o número de pessoas que perdem a vida já vinha crescendo, mas nunca imaginamos que fôssemos chegar a estes números assustadores nem veríamos repetidas cenas de desespero de mães, pais, irmãos, filhos e avós chorando pela morte brutal de tantas pessoas. Estamos vivendo clima de guerra. A vida está perdendo seu valor. Mata-se e morre-se por nada. O que dizer da perda de tantos policiais? Onde vamos parar? Como enfrentar a violência e conviver com a insegurança sem crescer com traumas? Por que as pessoas andam tão violentas? Estas são as perguntas que nos fazemos todos os dias. Seres humanos têm direito a uma vida digna e de respeito.

As consequências psicológicas são praticamente inevitáveis em quem escapa ou presencia cenas de violência e até de barbárie. Medo, revolta, isolamento e depressão são frequentes. As pessoas estão deixando de sair de casa, passar em determinados lugares, falar com desconhecidos. Estão desconfiando de tudo e de todos. Mas é muito importante não perdermos a capacidade de resistir e não nos deixarmos vencer pelo medo.

Viver é preciso e precisa ser também a busca de uma vida em abundância e não de uma sobrevida. Em nossa dor-raiva, percebemos que perdemos a segurança em nós mesmos, passamos a não acreditar em quem somos, na nossa potencialidade de fazer acontecer coisas boas nas nossas vidas e na vida do outro.

Existem propostas para a construção da paz que transformam raiva, rancor, ódios e desejos de vingança, provocados por agressões recebidas, em novas sementes de convivências saudáveis e harmônicas. Mas esta deve ser uma decisão que envolva muita gente, começando em cada cidadão. Um olhar para dentro de nós mesmos e reconhecer o lixo que carregamos: raiva, rancor, lixo com uma toxidade absurda que nos adoece e a quem está ao nosso redor e pode nos levar ao óbito. É necessário também que esse que busca a cura sinta-se protegido para que possa redescobrir um mundo novo, se reumanizar e a partir de então conseguir reumanizar aquele que teve ou ainda tem como inimigo e com ele procurar traçar pactos de reconciliação, fechando um ciclo de violência.

Várias partes do mundo conseguiram vencer momentos como este que o Rio de Janeiro vive hoje e merecem ser copiados. Quem sabe um pacto de coexistência, pacto de convivência ou pacto de comunhão? Vítima e agressor devem parar de "jogar pedras um no outro". Cada pacto a seu tempo. Cada pessoa envolvida no seu tempo. Vamos trocar a irracionalidade da violência pela irracionalidade do perdão. Mesmo que seja difícil, não podemos perder a confiança nem a esperança de que em breve tudo passará. Tenhamos fé. Tenhamos esperança. Vamos investir na paz.

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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação
Carmen Cyrino, colunista do DIA Divulgação

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