Moradores começam a retomar rotina na Rocinha

Em meio a tanques e sem ônibus, população desce o morro a pé ou de mototáxi para tocar a vida. Comércio reabre no local mas escolas públicas continuam fechadas

Por Bruna Fantti

'Você preferia me enterrar?" Foi essa pergunta que uma manicure de 21 anos, moradora da Rocinha, fez ao patrão ontem, logo após ser demitida do salão em que trabalhava em Copacabana. Moradora da Rua 2, um dos locais mais conflagrados da favela, ela não saiu de casa por conta dos tiros. "Já perdi um irmão de nove anos com um tiro na testa por bala perdida. Por segurança, fiquei em casa. Mas o gerente do salão não quis saber", contou.

Em meio à tensão e tanques de guerra, aos poucos, a rotina dos moradores volta ao normal. As escolas e creches particulares reabriram, mas com saída antecipada. "Minha neta de 1 ano voltou para a creche hoje. Normalmente, ela estuda até à noite, mas a saída foi às 16h", contou a dona de casa Maria Rodrigues, 56. Seu marido é dono do Bar do Zé, na entrada da Dioneia. A região, onde na mata traficantes estariam escondidos, virou um ponto fixo de soldados do Exército. "Moro há 35 anos aqui e nunca tinha visto isso", contou José Lima, que reabriu o bar, que funciona 24 horas por dia, desde segunda.

Já as escolas públicas continuam fechadas e os ônibus não circulam. Ociosas, muitas crianças brincam nas ruas, em meio ao vai e vem frenético dos mototaxistas e perto de um muro cravado de marcas de tiros. "Fui revistado quatro vezes. Hoje passei bem no meio deles (fuzileiros navais) para saber se iriam me revistar de novo", disse, achando graça, Matheus, de 9 anos. "Não preciso da escola. Sei contar dinheiro. Quero ser mototaxista", completou.

Ontem, durante uma reunião promovida pela associação de moradores, uma mãe disse que seu filho de 17 anos está desaparecido. "Dizem que um monte de garoto morreu na Vila Verde (parte alta da favela). Não o vejo há oito dias", afirmou Maria Rodrigues Gomes, 50. O registro do desaparecimento de Anderson Rangel foi feito na delegacia. À noite, uma faixa foi pendurada na passarela em frente à favela: "A Rocinha pede Paz".

Galeria de Fotos

Movimentação das tropas do exército na Rocinha. Marcio Mercante/Agencia O Dia
José Lima voltou a abrir seu bar, que funciona 24 horas por dia na localidade da Dioneia, na segunda Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Comentários

Últimas de Rio De Janeiro