A nova voz negra

Iza largou a Publicidade pela música e diz nunca ter pensado em entrar no 'The Voice', antes de gravar o primeiro disco. "Não gosto de competir"

Por O Dia

Quando a cantora carioca de r&b Iza subiu no Palco Sunset do Rock in Rio para dividir o palco com o americano CeeLo Green em setembro, não foi só ela que subiu lá. Dá para dizer que foi a mulher negra brasileira quem aportou no palco do festival.

"Eu acho esquisito ver que há pessoas que me têm como representante, porque eu mesma precisava muito de representantes quando era mais nova. Éramos poucas na época e ainda somos", diz a menina de 26 anos, que prepara seu primeiro álbum para o fim do ano (trabalhado ao lado de produtores como Rodrigo Gorky e Pedro Dash) e está lançando mais um single, 'Pesadão', com Marcelo Falcão (O Rappa). "Foi um caminho estar lá, agradeço ao Zé Ricardo (curador do Palco Sunset) e ao CeeLo por isso. É importante as pessoas verem uma menina negra, de Olaria, que largou o trabalho para viver de música, no Rock in Rio. Claro que não quer dizer que o racismo acabou ou que a falta de oportunidades diminuiu, mas isso pelo menos ajuda a gente".

ROUCA NA CIDADE DO ROCK

Dos bastidores do Rock in Rio, as maiores lembranças que Iza tem são de rouquidão e nervosismo. "Eu só tinha ensaiado uma vez com o CeeLo quando ele chegou ao Rio e eu estava rouca. Fui aquecendo a voz na van a caminho da Cidade do Rock", recorda, rindo.

Iza já tinha se apresentado para multidões algumas vezes. Uma delas, no trio da funkeira Ludmilla na 21ª parada Gay de Copacabana, ano passado. "Mas num trio você canta para gente que está dando beijo na boca, bebendo. E no Rock in Rio você tem um monte de gente olhando para a sua cara no palco, no telão, e ainda mais uma penca de gente vendo você em casa! Imagina como estava minha cabeça? Mas eu estava muito feliz", conta ela, que semana retrasada fez um show mais intimista, mas igualmente ao ar livre, na etapa Paraty do festival MIMO.

PUBLICIDADE E REDES SOCIAIS

Iza vem de uma família muito ligada à música ("nas reuniões, sempre tem alguém cantando ou tocando violão", diz). Quando criança, morando em Olaria - e em Natal, RN, para onde o pai, que é da Marinha do Brasil, tinha sido transferido -, fazia peças e shows na garagem e cobrava R$ 1 de ingresso de vizinhos.

"Aos 14 anos, eu cantava na Igreja, mas era hobby. Não achava que fosse boa o suficiente para aquilo, estava longe de querer que fosse minha profissão", lembra ela. "Quando decidi largar tudo para investir na música, minha família ficou do meu lado, acharam até que tinha demorado demais. As meninas hoje começam a cantar muito cedo, com 16, 17 anos. Com essa idade, eu estava preocupada em passar no vestibular logo, porque minha mãe não tinha dinheiro para pagar um cursinho. Cantar, eu nem achava que era possível para mim".

Antes de abraçar de vez a música, Iza fez Publicidade. Trabalhou com edição de vídeo e como gestora de redes sociais. "Já achei que tinha resolvido virar cantora tarde, mas tudo que aprendi foi importante para mim. Hoje, estou com outra cabeça, sei o que quero. E nunca é tarde", conta. Diz nunca ter pensado em participar de competições de voz na TV, como o 'The Voice Brasil'. "Detesto competição e me sinto muito nervosa competindo. Ter minha voz comparada à de outra pessoa, para minha cabeça, não seria legal. E não dá para você comparar a voz de alguém que canta r&b com a de alguém que canta sertanejo", afirma.

YOUTUBE

Quem viu os primeiros vídeos que Iza pôs no YouTube, há três anos, cantando músicas de Beyoncé, Rihanna e Sam Smith, viu uma cantora se descobrindo. "No meu primeiro vídeo, eu estava quase pedindo desculpas por estar cantando. Ele é muito engraçado, mas me sinto grata quando vejo, por causa da coragem que tive. Quero tudo perfeito, você fica esperando a melhor luz, o melhor som, a melhor câmera, o melhor dia, não faz nada", ensina.

Iza aproveitou o know how em redes sociais para patrocinar alguns links ("investia o que uma menina desempregada de 25 anos podia investir, era quase uma empresa de uma pessoa só", brinca) e mirou o melhor final que podia para sua história, que era sua entrada numa gravadora. "Entrei nas redes sociais e saí mandando meu canal do YouTube para todo mundo que trabalhava em gravadoras. Nem só para pessoas que tinham a função de lançar artistas novos. Alguém da Warner me viu e me levou para lá", conta.

Com um disco prestes a sair, Iza adoraria ver mais mulheres no comando do mercado fonográfico. "As funções de produção e de gestão são masculinas, o mercado ainda é muito masculino. Mas as mulheres estão se ajudando mais, fazendo parcerias. Isso sempre aconteceu no sertanejo e agora está acontecendo no pop", comemora.

Galeria de Fotos

Iza em show no Mimo Festival, em Paraty Divulgação/José de Holanda
Iza em show no Mimo Festival, em Paraty Divulgação/José de Holanda
Fotos de divulgação da cantora Iza Divulgação
Fotos de divulgação da cantora Iza Divulgação

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